Exportação de corrupção no reino do Jambon
Uma das instituições interessantes do reino do Jambon é um banco oficial dedicado ao desenvolvimento econômico. Chama-se BDE. Como o nome sugere, o BDE foi criado para fomentar o desenvolvimento no país do Jambon: alavancar o capital de empresas, fornecer crédito barato para que uma idéia possa tentar a sorte no mercado, essas coisas.
No reino do Jambon, contudo, no mais das vezes as coisas não são o que parecem, e não parecem o que são. Lá, as condições para a obtenção de crédito bancário, incluindo-se o do BDE, impedem o acesso de qualquer empresa que de fato precise de dinheiro para expandir sua operação, ou investir em tecnologia, ou melhorar seus processos produtivos. Os recursos muito consideráveis do BDE do Jambon são direcionados prioritariamente para objetivos como a fusão de megaempresas e a alavancagem de operações de loteria financeira em mercados de capitais.
Uma das interessantes inovações que o BDE introduziu no reino do Jambon foi o financiamento para a "exportação de serviços". Dito assim, parece que se trata de financiar a produção de software para clientes estrangeiros, ou algo desse tipo. Quer dizer, financia-se uma empresa que contrata analistas de sistemas, programadores, mercadológos e o que mais seja no reino do Jambon. Essas pessoas e empresas contratadas produzem um serviço que é vendido a clientes de outros reinos.
No reino do Jambon não é assim que funciona. "Exportação de serviços" consiste em financiar a execução de obras públicas em outros reinos por empreiteiras. Algumas das principais megaempreiteiras do reino do Jambon são particularmente bafejadas pela generosidade do BDE.
Ou seja, os tais serviços não são contratados no reino do Jambon, mas nos reinos nos quais as obras são executadas. Pedreiros, mestres-de-obras, carpinteiros, administradores, engenheiros, serviços variados necessários para a realização da empreitada, não são contratados no país do Jambon, mas alhures.
Assim, o dinheiro que pertence aos cofres do reino do Jambon é usado para alavancar a atividade econômica não no próprio reino do Jambon, mas em outros reinos - e, naturalmente, para enriquecer as empreiteiras que acertam esses negócios. O que leva a outra peculiaridade a respeito de como esses negócios são arranjados.
Os serviços "exportados" com dinheiro público do reino do Jambon não são executados em reinos minimamente organizados. Os alvos quase exclusivos dessas operações são reinos como o das Bananas, o das Milongas, o das Cocadas. Nesses lugares, a contratação de obras públicas não costuma ser precedida de uma concorrência em que ofertantes competem entre si e têm suas propostas julgadas de modo minimamente objetivo.
Nesses aprazíveis lugares o ministro de obras públicas, ou das comunicações, ou da infra-estrutura, ou do saneamento, decide e está decidido. A decisão de contratar determinada empresa e não outra é precedida de um leilão de ofertas - ao ministro, bem entendido, não ao governo que ele putativamente representa.
Assim, uma empresa oferece aos filhos do ministro matrículas em escolas da República dos Bushes. Outra, uso livre do apartamento que mantém na Avenue Foch, na capital da comuna dos Camemberts. Outras vão direto ao ponto e já levam malas de dinheiro ao monarca do lugar.
Uma das delícias do mecanismo é que as empresas que "exportam" os serviços não dependem de pagamentos dos reinos destinatários dos serviços. Afinal, esses "exportadores" não são bestas. Imaginem só depender de bananeiros e companhia bela para receber. O pagamento é feito pelo próprio BDE, em moeda do reino do Jambon. Como isso é possível? Ora, porque a operação é baseada na existência de créditos comerciais entre os reinos. O BDE usa esses créditos para lastrear os financiamentos.
Quando são indagados a respeito da sensatez disso tudo, os burocratas do BDE jambonense dão de ombros. Dizem que os financiamentos não são para os países destinatários, mas para as empresas "exportadoras" de serviços, e que a inexistência de processo concorrencial nesses outros reinos é problema desses reinos, não dos jambonenses, ou muito menos deles, burocratas.
Acontece que o reino do Jambon é signatário de uma convenção internacional que criminaliza o pagamento de propinas no exterior. Quer dizer, se uma empresa do reino A paga uma bufunfa ao ministro do reino B para conquistar um contrato e se o fato é descoberto, a empresa e seus responsáveis ficam sujeitos a processo criminal movido no país de origem da empresa. No caso e na hipótese, o reino do Jambon.
De forma que, no frigir dos ovos, na eventualidade (quem sabe o que o futuro reserva?) de se descobrir que uma obra pública "exportada" por empreiteira jambonense para algum reino do tipo leguminoso foi contratada por meio de propinagem, o BDE aparecerá nas manchetes internacionais assim: "Banco de fomento do Jambon financia corrupção internacional".
Nota: Coisas do reino do Jambon (1953) é obra póstuma do escritor e jornalista Lima Barreto, morto em 1922. Reúne crônicas satíricas publicadas na imprensa carioca ao longo dos anos. Jambon é "presunto".
11h49
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