Loteamento político e corrupção
A denúncia que o Procurador-Geral da República ofereceu contra os integrantes do esquema do Mensalão, cujo recebimento está sendo decidido pelo Supremo Tribunal Federal, identifica, logo de início, a origem do problema: a nomeação, pelo Executivo, de pessoas indicadas por partidos políticos para ocupar funções administrativas em troca de apoios parlamentares.
O que permite a prática, que nada mais é do que o loteamento oficial do Estado, é a excessiva liberdade de que os governantes gozam de nomear quem queiram.
Trata-se de verdadeira usina de corrupção, cujos produtos são visíveis não só no governo federal como também nas administrações estaduais e municipais, bem como no Legislativo e no Judiciário. Ao assumir um cargo importante, a primeira providência do sujeito é trazer a sua turma.
Além de estimular a corrupção, o comportamento funciona como suporte para o estabelecimento e manutenção de grupelhos e máfias no seio da administração pública. A cada mudança de administração, as pessoas que ocupavam posições de responsabilidade são afastadas ou demitidas, para ceder lugar a uma nova turma.
No mais das vezes, a operação não é acompanhada de qualquer pudor. Não há a mínima preocupação em justificar os motivos pelos quais alguém é substituído por alguma outra pessoa. “Preciso do cargo”, dizem os novéis gestores, sem ruborizar. Na seqüência, nomeiam o cumpincha, não raro alguém sem qualquer espécie de qualificação para ocupar o tal cargo.
É evidente, ou deveria ser, que além de abrir as portas do poder a aventureiros de todo tipo, a prática desestimula a formação de um quadro profissional responsável na administração pública. Os agentes públicos contratados pela CLT não podem confiar em que a sua capacidade profissional será relevante numa decisão de continuidade ou interrupção de seus contratos. E os funcionários concursados sabem que, se não se acertarem com alguma dessas máfias, terão diminuídas as suas oportunidades de progressão.
É extraordinário observar que tais práticas de desmoralização da função pública são exercidas a torto e a direito por todas as agremiações políticas e pela virtual totalidade dos chefes de Executivos, ministros, secretários estaduais e municipais, presidentes de autarquias e empresas de economia mista etc. etc.
Quando inquiridos, esses praticantes de ocupações mafiosas costumam justificar-se pela alusão à necessidade de contar com quadros “confiáveis” para conduzir a administração, bem como pela alegação oposta, de que necessitariam “limpar” de agentes de administrações anteriores as verdadeiras satrapias em que transformam as instituições de que, literalmente, “tomam posse”.
Com o suceder-se das administrações, cada uma delas ocupando as instituições públicas com hordas de cabos eleitorais, passando por aventureiros de diferentes estirpes e não raro quadrilheiros dedicados à pilhagem sistemática do Estado, o que é público é privatizado.
Pessoas são afastadas e demitidas, e outras admitidas e promovidas, sem que nem uns nem outros sejam submetidos a qualquer espécie de avaliação a respeito de sua proficiência profissional. Como não há critérios, constitui fato incidental que alguém incompetente seja demovido de função ou demitido, ou que alguém competente seja guindado a algum posto. Tanto faz. Como decorrência, ficam todos, competentes e incompetentes, aventureiros e pessoas de bem, aspones e profissionais, reunidos numa mesma categoria mediocrizante.
E ainda há quem diga que tudo isso se faz em nome do interesse público.
09h26
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