A primeira vez que ouvi falar de Octávio Frias de Oliveira (proprietário do grupo Folha, morto no último dia 29 de abril) foi em meados da década de 1960, quando meu pai, o jornalista Claudio Abramo, foi trabalhar naquele jornal.
Tive algum convívio profissional com Frias anos mais tarde, quando, por dois breves períodos, trabalhei na Folha. Depois disso, a partir de 2000, encontrei-me várias vezes com ele para tratar de assuntos do interesse da Transparência Brasil junto ao jornal.
As lembranças que me ficam de Frias são, portanto, de três tipos diferentes – decorrentes da crônica familiar, profissionais como jornalista e profissionais como dirigente da Transparência Brasil. Pessoalmente, a relação sempre foi muito acolhedora e carinhosa.
Receio que a curiosidade do eventual leitor se dirija mais para as relações entre Claudio Abramo e Frias, e não entre Frias e este que escreve, o qual não tem importância nenhuma na ordem das coisas. O impacto daquelas relações sobre a Folha, o jornalismo brasileiro e o processo de redemocratização do país têm sido objeto de relatos (poucos) e interpretações (muitas) em livros, artigos, comentários de jornalistas etc. Este que escreve tem muito pouco a acrescentar a tudo isso. Já o fiz anos atrás, brevemente, em artigo que saiu no Observatório da Imprensa, de forma que me eximo de repetir aqui o que foi escrito lá.
De toda forma, vale a pena ler o livro “A Regra do Jogo”, organizado por mim a partir de depoimentos de Claudio Abramo a vários jornalistas. O livro reúne também reportagens e artigos de meu pai. (Ao que tenho notícias, o livro é pouco usado em escolas de jornalismo, embora, parece, seja reeditado regularmente.)
Frias prestava atenção especial no caderno de Economia. Como numa de minhas passagens pelo jornal fui editor dessa área, meu contacto com ele era muito freqüente, seja no que diz respeito ao cotidiano da apuração e da edição, seja nuns almoços que aconteciam quase toda semana com a presença de algum empresário ou político. A regra desses almoços era que tudo o que transcorresse seria em off (ou seja, não era para ser publicado), a menos que explicitamente acordado em contrário.
O resultado é que se aprendia muitíssimo. Frias gostava muito de estimular conflitos entre o visitante e alguém do jornal, não raro ele mesmo. Tais embates podiam ser muito didáticos, pelo que revelavam a respeito de setores, pessoas, a natureza humana.
A Folha tinha também o hábito de realizar um almoço semanal que reunia Frias, a direção do jornal (Otavio Frias Filho e os então chamados secretários de Redação, dos quais havia dois) e os editores. Falava-se de uma porção de coisas relacionadas ao jornal, em geral chatices relacionadas à administração de uma estrutura enorme, meio disforme, com cadeias hierárquicas imprecisas, problemas em geral insolúveis de disciplina profissional e cheia de ineficiências, como é todo jornal.
Desse convívio limitado que tive pessoalmente com Frias extraio algumas impressões. Era uma pessoa extremamente objetiva, muito inteligente e muito sagaz na identificação dos interesses em jogo em cada situação, naturalmente os do jornal em primeiro lugar. Isso se refletia na forma como abordava os assuntos internos do jornal (tanto administrativos quanto jornalísticos) e externos.
Frias só fazia alguma coisa se era do interesse da empresa. Se numa negociação interna ou relativa a alguma proposta de parceria não reconhecia algum interesse para a Folha, não havia força no mundo que o fizesse ceder. De forma que, na negociação com Frias, o interlocutor que se apresentasse mal preparado, ou não tivesse grande coisa a oferecer, tinha grande probabilidade de não obter o que queria ou de sair tosquiado. Embora para alguns jornalistas isso parecesse perverso, trata-se de uma característica corriqueira e esperada, em particular de empresários.
Pelo que representou em minha vida, sentirei falta.