A COISA AQUI TÁ PRETA

DEDICADO AO COMBATE À CORRUPÇÃO, À PROMOÇÃO DO ACESSO A INFORMAÇÃO E A TEMAS INCIDENTAIS

Este blogue deixou de ser atualizado com regularidade. Publicam-se aqui apenas artigos do autor aparecidos em outra parte e notas ocasionais, ditadas pelas circunstâncias.

30.11.05 15h39 : Meritocracia |  14h12 : Deu zebra: venceu o bom senso |  13h32 : Round para o pernosticismo | 29.11.05 21h42 : Vaticínio |  21h31 : Sei não |  21h26 : Sem essa de varinha de condão |  20h45 : Investida perigosa |  16h03 : Êta dião besta |  10h10 : Ainda o financiamento de campanhas | 28.11.05 18h31 : Recordista |  09h34 : Quem nos domina | 27.11.05 08h54 : Segue a embromação | 26.11.05 17h56 : Viagens na rede |  15h57 : Paul Cézanne |  08h47 : Acinte |  08h37 : Invasões | 23.11.05 07h46 : Carochinhas | 22.11.05 13h32 : Pesquisas de opinião | 21.11.05 18h37 : Reflexão sobre a natureza humana |  10h10 : Para evitar o nada | 20.11.05 22h31 : A lista da da CGI |  22h20 : Sem-vergonhas | 19.11.05 11h37 : Edgar Degas |  10h52 : Uma guerra |  10h14 : Leni Riefenstahl |  09h23 : Corrupção e relativismo moral |  08h14 : Para todos os gostos | 18.11.05 18h35 : Para onde vão as ONGs | 17.11.05 15h47 : Agora a bola está com Renan |  10h00 : Back home | 14.11.05 16h09 : O Exercito de Sua Majestade | 12.11.05 19h07 : A ponta do tapete | 10.11.05 13h30 : Bissextas - 1 |  13h24 : Bissextas | 9.11.05 15h32 : Balancetes e outras coisas |  09h23 : Intervalo | 8.11.05 07h04 : Lula no Roda Viva | 7.11.05 11h27 : O bode da OAB |  08h06 : As respostas do presidente |  07h15 : Orelhas em brasa | 6.11.05 10h19 : Iolanda Huzak |  07h55 : Lições de mestre | 5.11.05 21h57 : Frustração histórica |  21h31 : Onde estão com a cabeça? |  07h42 : s | 4.11.05 14h19 : Esta é muito boa |  13h01 : Favas contadíssimas |  10h53 : Qual é a novidade? |  07h36 : Mais esbórnia |  07h26 : Esbórnia |  07h12 : No exterior | 3.11.05 16h13 : Pelo mundo |  16h00 : O direito de nos infernizar |  07h21 : Embromações | 2.11.05 15h56 : Responda pelo presidente |  15h29 : Tudo funcionando numa boa |  15h12 : Êta nóis |  12h19 : Não sei não |  11h16 : Pelo Brasilzão afora |  10h07 : Qual é a novidade? |  08h12 : Auto-retrato | 1.11.05 13h27 : Contas abertas |  11h16 : Surrealismo | 

Aprenda no Excelências sobre o histórico político dos deputados eleitos para a Câmara dos Deputados. Clique na imagem.


Meritocracia

Para quem tem fé nos processos "democráticos" de escolha de reitores de universidades, vale a pena conhecer alguns gostos da nova manda-chuva da Universidade de São Paulo, a farmacêutica Suely Vilela. Texto de Laura Greenhalg publicado no Estadão no último dia 27 dá conta de que

Animada com a indicação, a pioneira não ganhou medalha na primeira entrevista que concedeu já no novo cargo. Externou preferências, digamos, um tanto convencionais no gosto musical (é fã confessa de Julio Iglesias), nas escolhas literárias (citou livros de auto-ajuda), no interesse cinematográfico (Titanic e Uma Linda Mulher figuram entre as fitas de que mais gostou) e nos hábitos cotidianos de embelezamento (faz escova nos cabelos todos os dias).

[Aliás, o que é isso de "fazer escova", expressão que se encontra freqüentemente? Duvido que seja a mesma coisa que nós mortais comuns fazemos todos os dias de manhã, estremunhando frente ao espelho do banheiro.]


15h39 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Deu zebra: venceu o bom senso

Na seqüência do voto do ministro Sepúlveda Pertence, debateram-se os ministros sobre o quê, afinal, decidiram. A questão era que cinco ministros haviam votado pelo indeferimento da liminar (Dirceu iria ao cadafalso hoje), cinco outros pela reinquirição das testemunhas de defesa (levando a novela a algum momento no futuro) e o décimo-primeiro, o ministro Peluzzo, pela extirpação dos trechos do relatório contra Dirceu que mencionam a testemunha de acusação Kátia Rabelo (do banco Rural), o que na prática implicaria a primeira opção, a saber, Dirceu iria a julgamento hoje mesmo.

Após idas e vindas, argumentos e contra-argumentos, os ministros votaram de novo, vencendo o argumento de Peluzzo.

Ironicamente, por vias tortíssimas, no final das contas venceu um pouco de sensatez.

E cabe assinalar a posição do ministro Joaquim Barbosa, que denunciou a interferência do que chamou de "bizantinices" do processo judicial na esfera política, tendo sido verberado por vários outros ministros.


14h12 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Round para o pernosticismo

Pernosticismo procrastinatório: Foi esse o teor do voto do ministro Sepúlveda Pertence no julgamento do mandado de segurança interposto pelos advogados do deputado José Dirceu. Limpando-se a conversalhada, argumentou o ministro que o deputado teve violado seu direito de defesa porque uma testemunha de acusação foi inquirida depois das testemunhas de defesa.

Assim anda a Justiça brasileira. Não importa que essas inquirições e contra-inquirições não mais influenciarão a opinião dos parlamentares que votarem (se é que isso jamais acontecerá) o parecer do relator no processo de Dirceu. O que importa a esses magistrados são as aparências rituais. Em sua caudalosa intervenção, chegou o sr. Pertence a usar como paralelo um exemplo extraído de acidente de trânsito.

O que os ministros que votaram favoravelmente ao deputado se recusam a admitir é que parlamentares são a um tempo promotores, advogados de defesa, júri e juízes. Eles não são obrigados a se aterem às "provas dos autos". Sua opinião é formada independentemente de rituais, votando eles a partir de juízos formados a partir do noticiário da imprensa, de fatos que ignoramos e de que são conhecedores, de negociações e barganhas firmadas no território cinzento que fica entre o cafezinho os apartamentos funcionais, gabinetes da Esplanada dos Ministérios e por aí vai. Apesar das firulas do ministro Pertence, deputado José Dirceu teve garantido amplíssimo direito de defesa.

É assim, entre absurdidades e mistificações, que caminha o principal tribunal brasileiro.


13h32 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Vaticínio

Há poucas atitudes mais aventurosas do que fazer vaticínios políticos. Mas vou arriscar um. As evidências são de que, se de fato o deputado José Dirceu for julgado amanhã na Câmara, e se o voto contra ele for majoritário, assistiremos a mais e mais investidas de seus advogados junto ao STF.


21h42 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Sei não

O visitante Swamoro Songhai pergunta: 1) seria bom que a única medida fosse a instituição do voto facultativo? 2) os candidados que furassem o bloqueio da abstenção e fossem eleitos teriam maior credibilidade? 3) nesse caso as eleições teriam legitimidade?

O voto facultativo possivelmente teria o efeito de desestimular a participação das camadas populares, favorecendo com isso as oligarquias. Outro efeito do voto facultativo seria agravar o problema da compra de votos. Na República Velha, o voto era facultativo, o que é considerado como um dos fatores geradores dos famosos "currais eleitorais".

De outro lado, é claro que há argumentos favoráveis, como os aventados por Songhai.


21h31 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Sem essa de varinha de condão

No dia 9/11, este que vos escreve formulou aos eventuais visitantes deste blogue a seguinte pergunta: “Se estivesse em seu poder usar uma varinha mágica para dar jeito na corrupção brasileira, o que você faria?” Aí vai um apanhado das respostas. Ordeno-as em ordem decrescente conforme minhas próprias inclinações:

  1. Sem essa de varinha de condão. “Estou cansado das ‘balas de prata’ e das soluções mágicas” (de Renato, Marcelo Soares e Débora Lopes).
  2. Reduzir drasticamente o poder de nomear e investir na profissionalização dos servidores públicos (Roger, Wilson Trevizam, Antonio Pedro Ramos, Mario César Bucci).
  3. Ampliar a prestação de informação pelos entes públicos (Antonio Pedro Ramos).
  4. Tornar obrigatório o cumprimento dos orçamentos públicos (Antonio Pedro Ramos).
  5. Aparelhar melhor os organismos de controle (Luciano Marra).
  6. Reforma do Judiciário na marra (Renato).

Luiz Santilli e Lúcia Nunes apostam na educação massiva. A meu ver, o problema com isso é que educação não é início, mas fim. Presta-se educação para algo. Nenhum país investe em educação se não tem demanda para pessoas qualificadas – como é cada vez mais o caso do Brasil. De todo modo, o tema da educação é vasto e complexo, e poderíamos talvez iniciar um debate específico sobre isso.


21h26 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Investida perigosa

Segundo informa o Estadão de hoje (ler a matéria), o procurador Bruno Caiado Acioly está sondando colegas em busca de argumentos para pedir, na Justiça, a quebra do sigilo telefônico de quatro jornalistas que se recusaram a revelar fontes de matérias sobre corrupção que publicaram. São eles Policarpo Júnior e Alexandre Oltramari, da Veja, Expedito Filho, do Estadão, e um quarto nome não revelado. A reportagem do Estadão soube da história por ter tido acesso a e-mail do procurador em que a intenção é expressa.

Eis aí uma investida da maior periculosidade. O sigilo da fonte, garantida pelo ordenamento legal brasileiro, é uma condição imprescindível para o exercício do ofício de jornalista. Embora seja possível imaginar situações extremas em que um jornalista possa ser forçado legalmente a revelar a identidade de uma fonte (por exemplo, um genocida responsável pela morte de milhares de pessoas), na ordem natural das coisas o privilégio de manter sigilo é o que, em muitíssimas circunstâncias, assegura a própria possibilidade de o jornalista informar. Por exemplo, o repórter recebe uma dica de que o Fulano X recebeu propina da empresa A. A matéria que ele fará sobre X e A não mencionará a origem primeira da informação, e esta é irrelevante para a informação do público. Havendo ameaça a jornalistas de que a fonte poderia ser revelada, dicas desse tipo nunca mais seriam transmitidas.

Observe-se que a história não é mera especulação. Juntamente com a procuradora Raquel Branquinho, Acioly já entrara na Justiça com medida cautelar -- a qual foi negada -- pedindo a quebra do sigilo telefônico desses mesmos jornalistas.


20h45 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Êta dião besta

Depois de um depoimento como o de Ademirson Ariovaldo da Silva, secretário particular do ministro Antonio Palocci hoje na CPI dos Bingos, em que o sujeito afirmou que as milhares de ligações telefônicas que manteve com ex-integrantes das "República de Ribeirão Preto" foram todas de "natureza pessoal", só nos resta mudar de assunto.

Que tal guitarras? Da esquerda para a direita, Gibson ES-135 (tenho uma igualzinha), Fender Telecaster e Fender Stratocaster (neste caso, o modelo Buddy Guy, que tem o braço um pouquinho mais afilado do que o normal em direção à cabeça). A escala está certa. A Gibson é maior mesmo.

O impressionante é que esses três modelos são do início da década de 1950. A Gibson (de 1952) tem um desenho ainda bastante aparentado ao dos primeiros violões acústicos. O corpo é oco e estreito na altura, e a guitarra apresentava o recorte que veio do modelo Les Paul, de 1949, que foi a primeira guitarra com corpo sólido. O design das Fender já era muito mais revolucionário.


16h03 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Ainda o financiamento de campanhas

Lúcia Nunes pergunta: E o financiamento público (exclusivo) de campanhas eleitorais, não encaminha bem o problema dos custos das campanhas?

Esse assunto foi várias vezes abordado aqui. O problema fundamental com o financiamento público exclusivo de campanhas eleitorais é que empurrará parte das doações que hoje são feitas em caixa um para o caixa dois. O interesse econômico não deixará de pressionar em eleições, e se não puder fazê-lo às claras, fá-lo-á às escuras. É muito mais importante desenvolver meios de reduzir o caixa dois de empresas (através de aperto da fiscalização tributária) e aperfeiçoar mecanismos de monitoramento de gastos de campanha (o que, admitidamente, é muito difícil).

Pouquíssimos países adotaram o financiamento público exclusivo de campanhas. O México fez isso e, diante da generalização do caixa dois, desistiu.


10h10 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Recordista

Informa o jornal A Tarde, da Bahia, que o prefeito da cidade de São Francisco do Conde, Antônio Calmon (PFL), foi alvo da quinta sentença judicial só este ano, condenando-o à perda do mandato. O prefeito resiste, com a inestimável ajuda dos recursos judiciais. Ver aqui o que já se escreveu sobre o caso do prefeito.

No Espírito Santo, nada de conclusão para o processo de cassação de 15 deputados estaduais acusados de envolvimento na máfia capitaneada pelo ex-deputado José Carlos Gratz, hoje no xilindró. Leia mais.

Em Mato Grosso, o sr. Vano José Batista, do PP, foi eleito prefeito em eleição realizada ontem. Houve nova eleição porque o prefeito eleito em 2004 perdeu o mandato por ter comprado votos. E quem foi o prefeito eleito em 2004? Ora, o mesmo Vano José Batista. Leia mais.

Êta paizinho bão da peste!


18h31 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Quem nos domina

Sábado fui ao cinema. Iniciada a sessão, esperava ver uns trailers. Gosto de trailers. Dão uma idéia do está por vir, mostram umas nesgas de cenas. Nada muito importante, mas divertem.

Mas, não. Nada de trailers. Em seu lugar, quase dez minutos de comerciais, incluindo-se um desenho animado tatibitate sobre saídas de incêndio. [Incluído posteriormente: Já sei, já sei. Trailer também é comercial.] O último reclame foi o de uma ONG voltada para marketing social, em que, numa fala em close, um embresário (vestia terno escuro, tinha aí pelos cinqüenta anos e ostentava atitude arrogante -- logo, era embresário) afirmava que não seria necessário levar em consideração o que pensa o consumidor. O comercial fechava mostrando que ele estava sozinho na sala e que, sendo o último a sair, apagaria a luz. Moral da história: quem não ouve o consumidor fica falando sozinho.

Isso ao final de dez minutos de agressão comercial não precedida de nenhuma pergunta sobre se nós, consumidores que pagamos ingresso para assistir a um filme, estávamos dispostos a ser submetidos a malhos publicitários.

Assim caminha a lógica embresarial, aproveitando-se de seu poder financeiro e da falta de mecanismos de defesa do consumidor -- sem falar na passividade do público. Este que vos escreve protestou em alta voz, mas os circundantes olharam como se fosse a manifestação de um doido.


09h34 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Segue a embromação

Um motivo permanente de frustração para quem segue a política e ainda mantém alguma esperança na racionalidade humana é a ausência desta última na primeira (o que responde, aliás, pela prevalência dos marqueteiros; mestres do embuste, promotores da mistificação, não é à toa que eles dominam o panorama quando se trata de eleições -- mas esta é outra história). Apanhados com a mão na cumbuca, com a boca na botija, com as patas no furungá, a turma inventou a história de que os desvios de dinheiro que alimentaram o valerioduto teriam tido motivação eleitoral, seguindo-se então a promoção extemporânea da necessidade de alterar o modelo de financiamento de candidatos (curiosamente, não se fala no financiamento de partidos, que no Brasil é separado do de candidatos), de reduzir os custos de campanhas etc.

Mas, conforme tem sido apontado desde a criação deste blogue, dinheiro público é desviado por direcionamento de licitações públicas, leniência na fiscalização de contratos, propinagem na área tributária, promulgação de legislações e regulamentos que beneficiam setores econômicos etc. Nada disso depende do modelo de financiamento eleitoral. Altere-se como se queira as regras de financiamento que isso não terá qualquer efeito sobre os mecanismos geradores e promotores de corrupção. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Apesar disso, continua a construção da ficção, que tem por finalidade livrar a cara daqueles que operam a roubalheira. O mais recente prego na estrutura de embromação são as notícias de que, para a campanha de 2006, o presidente da República poderia instituir uma instância de gestão de financiamentos de campanha chefiada por um empresário não comprometido com a estrutura de seu próprio partido. Nomes são mencionados.

Se isso for verdade, e não apenas balão de ensaio, já aí reside nova mentiralhada. Primeiro, porque a circunstância de o sujeito eventualmente ser empresário não atesta coisa alguma quanto à natureza de seus atos. Segundo, porque essa história de não ser comprometido com a estrutura partidária não faz nenhum sentido. Como é possível imaginar que alguém seja responsabilizado pelas finanças de uma campanha caso não conte com enormes doses de confiança não só do candidato, mas de sua entourage? E como ganhar tal confiança na ausência de uma nutrida folha de serviços prestados?

Terceiro, e mais importante, semelhante iniciativa não garantiria coisa nenhuma no que tange acordos criminosos por debaixo do pano. Mesmo porque qualquer um que tenha passado na rua diante de um comitê eleitoral sabe perfeitamente bem que as finanças do caixa um são mantidas separadas do caixa dois. Normalmente, caixas diferentes têm gestores diferentes. O Fulano que administra o caixa um é em geral diferente do Sicrano que administra o caixa dois. O primeiro aparece, presta as contas, enche a boca com legalidades e moralidades vocais. O segundo permanece nas sombras. Quanto menos o primeiro souber do que o segundo faz, melhor.

Não se sabe (e nunca se saberá) se o PT seguiu a cartilha e separou as finanças, ou se desobedeceu ao princípio da separação. Talvez tenha desobedecido. Se assim foi, a iniciativa aventada, de nomear alguém pretensamente "independente", serviria apenas para levar o partido de volta à ortodoxia das práticas financeiras partidárias.


08h54 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Viagens na rede

A coisa aqui tá preta

Cada vez mais, museus estão tornando disponíveis passeios visuais na Internet, usando tecnologias que aproveitam o aumento da velocidade de transmissão de dados propiciado pela disseminação das conexões em banda larga. Um dos primeiros a fazer isso foi o Hermitage, de São Petersburgo, há um par de anos. Itens diversos da espetacular coleção desse museu são acessíveis através de um aplicativo em Java. Veja como funciona clicando na imagem ao lado [de um burgonet, capacete feito pelo armeiro milanês Filippo Negroli para Guidobaldo II della Rovere, Duque de Urbino (1514–1574)].

A coisa aqui tá preta

Outro museu que tem experimentado com isso é o Louvre, de Paris. O museu lançou uma seção em seu sítio chamada "A la loupe", "Sob a lupa", em que uma obra é examinada detalhadamente. Clique na imagem para ver como funciona no caso de uma estela de basalto do século II a.C., originária de Susa, em que está inscrito o código de Hamurabi.

Também o Museu do Vaticano aderiu. Clique na imagem abaixo para um passeio pelo afresco do Juízo Final na Capela Sistina.

A coisa aqui tá preta

Como acontece com todos os exemplos, as apresentações são pesadas (especialmente no caso do Hermitage) e, mesmo com uma conexão de alta velocidade, demoram a entrar. Mas vale a pena ter paciência.


17h56 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


O Brasil e os Mestres da Pintura

A coisa aqui tá preta

Paul Cézanne: Retrato do pai do artista.


15h57 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Acinte

Nesta época de tantas chicanas e desmoralizações, é difícil dizer qual é a mais despudorada. Mas há uma candidata forte à taça: Comenta-se que o sr. Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal, pretenderia candidatar-se à Presidência da República ou à vice-Presidência, numa chapa PT-PMDB.

Não poderia haver melhor atestado de desrespeito do princípio de separação dos poderes do que esse. Se é mesmo verdade que o sr. Jobim alimenta tais ambições -- o que significaria que estaria se articulando pragmaticamente para concretizá-las --, só isso já o desautorizaria de ocupar o cargo que ocupa. Precisaria ser exonerado não apenas da Presidência do STF como defenestrado como ministro. De quebra, deveria ter cassado o direito de candidatar-se.

É inaceitável que um ministro de Tribunal Superior, e ainda por cima presidente, se movimente no espaço político como implicado pela versão. Se verdadeiro, o fato compromete todas as decisões da Corte, tornando-as, todas, suspeitas.

Só haveria um modo de dissipar a dúvida -- seria o sr. Jobim vir a público para desmentir a versão e declarar a incompatibilidade da intenção com a natureza da função que exerce como ministro do STF.


08h47 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Invasões

A possível aceitação, pelo Supremo Tribunal Federal, de argumento da defesa do deputado José Dirceu segundo o qual o rito processual não teria sido cumprido quando da oitiva de testemunhas durante seu processo no Conselho de Ética da Câmara, reforça o diagnóstico de que o Judiciário está se imiscuindo onde não devia. Visitantes deste blogue concordam. Vejamos:

O visitante Leonardo argumenta que “cassação e exoneração não são penas. São medidas que visam a preservar as instituições republicanas. Isso significa que não apenas os culpados, mas também os seriamente suspeitos, devem ser afastados. O processo político não é um processo penal. Portanto, não se sujeita aos requisitos severos de prova e procedimento. Na República Romana, os senadores se retiravam à vida privada quando caíam em desonra. Tocqueville explica que nos EUA (no século XIX), o processo contra funcionários públicos desonestos era sumário e visava preservar as instituições públicas. Como a conseqüência era apenas o afastamento e não prisão, não se exigia o cumprimento de formalidades processuais.”

A partir de estudo das decisões do Tribunal de Justiça de São paulo durante a Primeira República, a historiadora Marilia Schneider assinala o caso de um tesoureiro do erário municipal acusado de desfalque. “Afastado de suas atividades enquanto o processo tramitava, o funcionário pediu sua reintegração ao cargo. O juiz de direito considerou que o tesoureiro fora legalmente suspenso, que não podia pleitear a sua reintegração, mesmo que o desfalque não estivesse provado, e que a reintegração era ‘comprometedora dos creditos da Municipalidade, atenta à natureza daquele cargo que exige a mais absoluta confiança do funcionário, hoje incompatibilizado’."

Na minha opinião, é isso aí, tornando-se ocioso elaborar adiante.


08h37 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Carochinhas

Aproveito uma frase de Fernando Rodrigues, ao se referir ao depoimento de ontem à CPI dos Bingos do sr. Paulo Okamoto, o qual teria alegadamente ressarcido alegada dívida do presidente da República junto a seu partido: "A história é uma loucura, mas ninguém consegue provar que é mentira."

De fato, conforme tem sido apontado neste espaço (ver, por exemplo, esta nota), a turma está seguindo estratégias alimentadas por seus advogados. Conforme ensina a tradição jurídica brasileira, não há problema nenhum em mentir, e menos ainda na circunstância de a mentira ser evidente, implausível e ofender a inteligência. Importa que não apareçam evidências materiais dos malfeitos. Mesmo testemunhos de pouco servem. Um sujeito aparece e diz que o ministro Tal mandou favorecer determinadas empresas em licitações públicas. O ministro diz que não é verdade, pede provas e fica tudo por isso mesmo. Mas quais provas queriam? Recibos registrados em cartório de propinas pagas? Gravações tomadas em altos gabinetes registrando o planejamento de tramóias? [Aliás, na Ucrânia aconteceu um caso, um par de anos atrás, em que o chefe da segurança do presidente da República gravou conversas comprometedoras de seu chefe; foi celeremente assassinado.]

Se juridicamente a estratégia do cinismo funciona, politicamente não funciona. A cada aparição de um operador desses, mais e mais se sedimenta a convicção sobre a realidade dos malfeitos.

E por falar nisso, é muito engraçado assistir à ginástica dos simpatizantes dos malfeitores, os quais durante anos insistiram na prevalência do raciocínio sobre a retórica, e que agora se valem desta para tentar desmoralizar aquele.


07h46 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Pesquisas de opinião

Foram divulgados há pouco os resultados da pesquisa CNT/Census deste mês (ver um resumo aqui). Fora perguntas sobre preferências eleitorais etc., que não tratarei, a corrupção aumentou muito no governo Lula para 35,6% dos entrevistados, ao passo que 16,2% disseram que aumentou pouco, 36,8% que permaneceu no mesmo patamar de sempre, 6,6% que diminuiu um pouco e 0,8% que diminuiu muito.

Para 70,2% a corrupção no Brasil é grave e maior do que em outros países; para 11,8%, ela não é grave e é menor do que a de outros países; outros 11,8% acham que é semelhante à de outros países. Quanto à responsabilidade de Lula, as opiniões de um lado e de outro ficaram quase igualmente divididas: 42,8% dos entrevistados crêem que Lula participou dos atos de corrupção e 41,3% que não.

Pesquisas de opinião devem ser tomadas com vários grãos de sal. Uma coisa é perguntar uma intenção de voto: por exemplo, "Em quem você votaria?". Essa é uma informação de total domínio do respondente, e portanto ele sabe em primeia mão sobre o que está respondendo. Outra coisa completamente diferente é perguntar o que o respondente acha sobre fatos externos, que não testemunhou. Seja o que for que responda, necessariamente será por ouvir dizer. É assim com todas as perguntas sobre corrupção.


13h32 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Reflexão sobre a natureza humana

A esmagadora maioria das pessoas que visitam este blogue não gosta do que lê aqui, ou não está interessada nos assuntos tratados. É o que se deduz do fato de essa maioria fazer uma visita e não retornar mais. Mas há entre os que não gostam alguns que têm um comportamento curioso: Fazem questão de escrever um comentário no sentido de que acharam uma droga. O que me move a assinalar esse comportamento não é a manifestação de desagrado em si, pois cada qual se agrada com o que mais fala à sua imaginação e a seu gosto. Não me causa nenhum tremor alguém escrever que considerou este blogue um lixo -- pois, repito, a grande maioria não gosta mesmo.

O que é gozada é essa compulsão em escrever um xingamento sem maiores explicações. Pois tais manifestações não são acompanhadas de algum argumento. Trata-se só do externamento de um mal-estar. Possivelmente, é uma forma de buscar comunicação num mundo pouco solidário e muito solitário. "Quero me manifestar, e esta é a forma como quero me expressar". Não ocorre a essas pessoas que o ato é incivilizado. Não por causa da discordância, mas devido à falta de preocupação em esclarecer o porquê da discordância.


18h37 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Para evitar o nada

O noticiário dá conta de que o deputado Osmar Serraglio, relator da CPMI dos Correios, recomendará em seu relatório o indiciamento de cerca de 50 pessoas, incluindo-se alguns figurões. Isso poderá vir a satisfazer a sede de punições de muitos (ou, melhor dizendo, a sede por recomendações para punições judiciais, as quais, punições judiciais, naturalmente ficarão para as calendas, se é que virão jamais a ocorrer), mas não arranhará a superfície dos problemas evidenciados pela crise do mensalão.

Se o deputado Serraglio ficar só nisso, a crise, que é prenhe de possibilidades, parirá um nada. Não aprenderemos nada e poderemos ter a certeza de que os mesmos fatos continuarão a acontecer. O que se exige que o deputado faça é apontar as causas da crise. Entre estas, em primeiro lugar a liberdade de nomeação de pessoas para ocupar cargos de confiança.

Com a intenção de alertar o deputado quanto à necessidade de ele não deixar escapar a oportunidade, a Transparência Brasil endereçou-lhe hoje o seguinte ofício:

    Prezado senhor relator:

    Dirijo-me a V. Excia. em nome da Transparência Brasil para, com a devida vênia, instá-lo a incluir de forma proeminente em seu relatório recomendações no sentido de se minimizarem as causas fundamentais da crise que deu origem à CPMI dos Correios.

    Conforme ficou claro desde o início, a crise Correios-mensalão decorreu claramente de uma prática que não é exclusiva do presente governo nem se restringe ao poder Executivo ou à esfera federal. Refiro-me à liberdade de nomeação de pessoas para ocupar os chamados “cargos de confiança”.

    No caso particular do Executivo, como este tem o poder de nomear, usa-o politicamente para barganhar apoios parlamentares. Procede-se com isso ao que se designa, apropriadamente, como “loteamento”. Os partidos e indivíduos beneficiários das nomeações usam-nas em benefício próprio, contando com isso com a leniência dos responsáveis pela nomeação - pois essa é a contrapartida do apoio parlamentar que justificou as nomeações. Essa é uma praga que afeta todos os governos de todas as três esferas, sendo notória geradora de corrupção. Além disso, a liberdade de nomear contamina o corpo funcional permanente do Estado, que deixa de se guiar por critérios profissionais, passando a jogar o mesmo jogo político dos egressos de fora do funcionalismo.

    Não há outra forma de romper esse círculo vicioso senão reduzindo drasticamente o poder de os governantes nomearem pessoas para ocupar cargos na administração. Tal medida é insistentemente apontada como necessária pelos organismos multilaterais que conduzem programas de anticorrupção.

    A redução significativa das nomeações (só no governo federal elas são mais de 22 mil, não se conhecendo ao certo esse número) precisaria ser acompanhada de medidas regulatórias que incidam sobre a forma de ascensão profissional no aparelho de Estado.

    Não é exagerado afirmar, senhor relator, que, se a CPMI dos Correios não apontar essa necessidade urgentíssima, seus trabalhos terão sido largamente frustrados.

10h10 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


A lista da da CGI

Fernando Rodrigues disponibilizou em seu blogue a lista de mais de 28 mil nomes citados em relatórios da Comissão Geral de Investigações, organismo criado no início do regime militar para investigar denúncias de corrupção. A lista (só têm acesso assinantes do UOL) foi tornada pública por ordem do presidente Lula. Até 31 de dezembro, todos os documentos em que esses nomes aparecem precisarão estar à disposição do público no Arquivo Nacional.

Fernando é talvez o mais ativo defensor da necessidade de o Brasil ter uma legislação que regulamente o acesso a informação no Brasil. Escreve ele: "Quanto mais pessoas pedirem acesso aos documentos, mais aumentará a pressão para que o Brasil tenha, algum dia, uma lei mais apropriada para acesso a todos os documentos públicos." É isso aí.


22h31 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Sem-vergonhas

Josias de Souza informa em seu blogue (ler) que os presidentes de tribunais de Justiça estaduais vão entrar no STF com medida para tentar reverter a recente decisão do Conselho Nacional de Justiça que proíbe o nepotismo em todas as instâncias do Judiciário. O caso é que os desembargadores (os magistrados que ocupam as posições mais elevadas da hierarquia) não querem abrir mão dos empregos da parentada deles próprios. Segundo relata Josias, o assunto foi discutido em reunião realizada na semana passada em São Luís (MA). Houve quem tivesse ameaçado entrar em "desobediência civil".

As manifestações dos magistrados não surpreendem. Afinal, sabemos muito bem que a sem-vergonhice da turma não conhece limites. Já a desenvoltura com que se defende o descalabro chama a atenção. Estou enganado, ou essas exibições de picaretagem explícita estão se tornando mais e mais desavergonhadas?


22h20 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


O Brasil e os Mestres da Pintura


Edgar Degas, Retratos num escritório de algodão em Nova Orleãs.


11h37 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Uma guerra

Para quem deseja entender por que a civilização é incompatível com a religião, recomenda-se a leitura de A History of the warfare of Science with Theology in Christendom, de Andrew Dickson White. Ao que eu saiba, não há tradução portuguesa. O texto pode ser lido na Internet (vários endereços; aqui, por exemplo).


10h52 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Leni Riefenstahl

A coisa aqui tá pretaDurante anos, fizeram parte de meus objetos de desejo os livros de fotos da África de Leni Riefenstahl. E eis que encontrei no Museu Britânico, a preço de banana, um livraço de 5 quilos com todas as suas fotos africanas. Considerada maldita por muitos por ter trabalhado como documentarista durante o regime nazista, Riefenstahl (que morreu em 2003 com quase 101 anos de idade) fez fotos extraordinárias na África. Muitas delas estão na Internet. Clique na foto para vê-las.


10h14 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Corrupção e relativismo moral

Nota inserida aqui há algum tempo estimulou alguns comentários (ver) sobre juízos de valor, relativismo moral e temas correlatos, expostos por Lúcia Nunes e Arturo Fatturi. Vale a pena comentar brevemente esses comentários.

Este que vos escreve afirma que, de forma a advogar/induzir alterações no ambiente social, de nada vale apelar para a reforma moral de indivíduos (a rigor um pleonasmo, pois por definição moral diz respeito a indivíduos), melhor sendo reformar as instituições. Entendem Fatturi e Nunes que isso equivaleria a adotar o relativismo moral, a doutrina segundo a qual cada subgrupo social teria o direito de seguir os códigos morais que desejasse, podendo ser cobrado de seus integrantes que obedeçam a estes, mas não que obedeçam a códigos estranhos a estes.

Devo declarar que, das distorções contemporâneas a respeito das quais tenho maior horror, o relativismo ocupa o primeiro lugar. O tecido social só subsiste na presença de códigos compartilhados. Quanto mais amplo esse compartilhamento, mais condições existem para que as pessoas consigam dialogar (ou seja, discordar e discutir suas discordâncias). Afirmar que é mais sensato alterar as condições do ambiente social, para assim erigir os códigos compartilhados, e não embarcar em cruzadas moralistas voltadas para a reforma individual, é uma posição pragmática, nada tendo a ver com relativismo.

O ponto de vista que atribui a defeitos morais os males do espaço público estimula o aparecimento de demagogos ("votem em mim, porque sou honesto"), frisa exageradamente a punição como remédio (é evidente que culpados devem ser punidos; o problema é que é extraordinariamente difícil provar que alguém é culpado, aqui ou na Noruega) e obscurece a exibição dos motivos estruturais das mazelas. Ou, como pôs Machado de Assis em "Teoria do medalhão",

Faz-se uma lei, executa-se, não produz efeito, subsiste o mal. Eis aí uma questão que pode aguçar as curiosidades vadias, dar ensejo a um inquérito pedantesco, a uma coleta fastidiosa de documentos e observações, análise das causas prováveis, causas certas, causas possíveis, um estudo infinito das aptidões do sujeito reformado, da natureza do mal, da manipulação do remédio, das circunstâncias da aplicação; matéria, enfim, para todo um andaime de palavras, conceitos, e desvarios. Tu poupas aos teus semelhantes todo esse imenso aranzel, tu dizes simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes! — E esta frase sintética, transparente, límpida, tirada ao pecúlio comum, resolve mais depressa o problema, entra pelos espíritos como um jorro súbito de sol.

09h23 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Para todos os gostos

Quer a tradição que, no século V a.C., o filósofo-didata Confúcio organizou diversas compilações da tradição oral e escrita chinesa. Um deles foi o Livro dos cantares, que reúne poemas datados entre aproximadamente 1700 e 600 a.C. Vão aí alguns exemplos, extraídos da tradução portuguesa de Joaquim A. Guerra, S.J., publicada pelos jesuítas portugueses de Macau (1979):

A mosca azul

Numa faina, a mosca azul,
Na gaiola foi poisar.
Se é bondoso e amigo o Príncipe,
Em calúnias não se fia.

Numa faina, a mosca azul,
Foi poisar no jujubeiro.
A calúnia intriga tudo,
Põe o Estado em confusão.

Numa faina, a mosca azul,
Foi poisar sobre a aveleira.
Essa gente não tem cobro,
Desavindo a uns e outros.

O povo sofre

Está o povo a sofrer,
E algum bem podia ter.
Melhoremos este Centro,
P’ra que folgue o país todo.
Fora os falsos seguidores,
Para aviso aos que são maus,
Lei em cima dos bandidos,
E mais quando a luz não temem.
Bom acolho p’ra os de longe;
Co’os de perto paciência,
P’ra firmar o nosso Rei.

[...]

Açoites

O Senhor do Alto açoita-nos:
Todo o povo está sofrendo.
Não se faz o que se diz,
E os projectos não vão longe.
Governar sem santidade,
Não é sério, nem sincero.
Quando os planos não procedem,
Está nisso um grande aviso.

[...]

Quando o Céu agora oprime,
Não andeis inda a brincar.
Quando o velho desabafa,
Eis os novos orgulhosos!
Nem velhas são minhas falas;
Do que é triste vós brincais.
Vão erguer-se labaredas,
Que nada pode apagar.

Estando o Céu irritado,
Não sejais aduladores.
Com ares tolos de todo,
Os hábeis fazem de mortos.
Quando vai gemer o povo,
Nem eu me atrevo a pensar.
De luto e sem subsistência,
Nem assim valeis às massas.

[...]

Senhor de si

[...]

Exercita a tua gente,
Olha ao teu dever de Príncipe.
P’ra evitar os imprevistos,
Tem cuidado no que dizes;
Atende bem ao teu porte,
Nada seja reprovável.
Nódoa no branco da maça,
É possível esfregá-la;
Caída mancha na fala,
Nada resta que fazer.

Não sejas fácil em falas,
Nem nunca digas à toa:
“Minha língua ninguém tolhe!”
As palavras não se somem;
Não há fala sem resposta,
Nem obra que não se pague.
Se inda mais que aos teus amigos,
Os filhos do povo ajudas.
Os teus herdeiros em série
Hão-de os povos respeitar.

[...]


08h14 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Para onde vão as ONGs

Bernardo Sorj acaba de publicar na Biblioteca Virtual Marian e Arthur Edelstein um artigo muito interessante sobre o papel e os dilemas de ONGs em países periféricos. Título: "Sociedades Civis e Relações Norte-Sul: ONGs e Dependência". Trechos:

[...] a mais forte expressão da sociedade civil nos países em desenvolvimento, as ONGs independentes, embora compartilhem elementos comuns com suas equivalentes em países avançados, são ONGs dependentes.

Nos países em desenvolvimento, os pobres sabem melhor que os ideólogos da sociedade civil que a solidariedade privada não resolverá sua necessidade de um eficiente sistema legal e de segurança pública, de educação, saúde, saneamento, eletricidade, água e serviços urbanos. A sociedade civil só será um importante fator democratizante se se envolver ativamente no sistema político e na transformação das instituições do estado e dos partidos políticos.

Baixe a íntegra do artigo aqui.


18h35 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Agora a bola está com Renan

Após ler esta nota, solicito o obséquio de ler o texto em vermelho no alto da página e, se quiser, fazer o sugerido.

Fim do primeiro round. Ganhamos pelo menos esta. Parabéns pra nós. A campanha de envio de e-mails ao senador Delcídio Amaral para que se obtenha e se publique a lista dos indivíduos que ocupam cargos no governo por nomeação política resultou em ofício deste ao presidente do Senado, Renan Calheiros, solicitando que a Mesa da Casa faça a requisição à Casa Civil (clique aqui para ver a íntegra do ofício). Agora a bola está com Renan.

(Por outro lado, Delcídio não pediu a identificação das "cotas" partidárias a que essas pessoas pertencem, mas apenas suas filiações partidárias, o que está longe de ser a mesma coisa. O e-mail a Renan explicita que o que interessa são as "cotas".)

Para que tenhamos sucesso também no segundo round, façamos o mesmo que antes: Enviemos e-mails ao senador Renan. Para fazer isso, clique no texto lá no alto.


15h47 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Back home

LONDRES - Na nota anterior (dia 14/11, logo aí embaixo), esqueci-me de tocar num ponto que havia planejado incluir. É o seguinte. Quando se visita os EUA, fica-se impressionado pela profusão de estátuas, monumentos, memoriais, placas comemorativos de façanhas ou eventos militares. Qualquer cidadezinha norte-americana tem lá um lugar, um busto, uma estátuta, rememorando algum soldado que saiu dali e morreu em alguma das várias centenas de localidades remotas em que o poder militar dos EUA se fez sentir. Como se trata do país mais agressivo da história recente (Átila e Gengis Khan não contam, pois em sua época o estado nacional ainda não havia se desenvolvido), não faltam oportunidades para que seus soldados morram em algum lugar.

A Inglaterra é ainda pior. É impossível caminhar três quarteirões em Londres sem deparar com alguma referência a um feito militar. Memórias de bronze, granito e mármore, tanques da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, canhões das guerras das Rosas, da Reforma, da Restauração, torres, prisões e uma infinidade de retratos de oficiais em praticamente qualquer prédio público ou semi-público em que se entre nos fazem lembrar que este é um país que se orgulha de matanças.

É evidente que muito do que se vê na Itália do Império Romano, nos afrescos egípcios, nos monumentos assírios, nas pinturas chinesas, japonesas, coreanas, tem a mesma origem sanguinária. É evidente que o ser humano, ou ao menos o ser humano que chega ao poder, pois é esse que encomenda as estátuas e mausoléus, tem especial predileção pela violência. Os franceses, por seu turno, que mais perderam do que venceram batalhas, exibem muito menos essa tendência, embora esteja presente em boa parte daquela pintura de grandes dimensões que preenchem algumas vastas salas do Louvre. (É claro, porém, que os gauleses administram com mão de ferro suas ex-colônias. Uma delas entra em dificuldades internas e, num átimo, lá se vão os paras, pára-quedistas franceses de elite, especializados em suprimir a dissensão no ultramar. Fazem-no com particular violência.) A Itália do Renascimento tem isso de peculiar: são pouquíssimas as manifestações artísticas que homenageiam a "arte militar" (pior justaposição de palavras do que essa, estou para ver). Por outro lado, é claro nas masmorras da Igreja Católica correram rios de sangue, cuidadosamente suprimidos e disfarçados pelas Madonas e Ascensões.

OXFORD - Se algum ano pode ser definido como o de criação da Universidade de Oxford, seria 1167, quando o rei Henrique II proibiu os estudantes ingleses de freqüentarem a Universidade de Paris. Contudo, Oxford já abrigava instituições de ensino desde pelo menos 1096. Aqui, tudo exala tradição -- incluindo-se aspectos da vida que melhor seriam conduzidos se a tradição tivesse dado lugar a alguma modernidade.

Nessas instituições muito tradicionais -- incluindo-se as norte-americanas, cuja tradição advém da presença de trepadeiras nas suas paredes; uma trepadeirazinha num prédio construído em 1946 lhe dá um baita ar de respeitabilidade -- mas, voltemos, nessas instituições, para o bem ou para o mal, desenvolveu-se toda a tradição intelectual ocidental. Mesmo mantendo a consciência a respeito da orientação geral dessas universidades, sempre muito atentas para os vagares do poder, é impossível deixar de admirar a atmosfera de liberdade acadêmica que se respira. No caso de OXford, decerto não em todos os seus mais de trinta Colleges (não são bem faculdades, no sentido franco-brasileiro), mas em muitíssimos deles. O mundo acadêmico -- o mundo acadêmico desenvolvido, bem entendido, não esse arremedo que temos aqui -- tem essa qualidade insuperável. É só nele que se pode discutir idéias. Fora dele, não mais.

É claro que há burocracia, punhaladas pelas costas, bobagens inomináveis, mas ouvir um argumento, contra-argumentar, apresentar suas idéias, vê-las discutidas com honestidade intelectual, compensa essas mazelas.

SÃO PAULO - De volta à casa, de volta ao mensalão, ao ministro Palocci, ao deputado José Dirceu. Sobre isso, mais tarde ou amanhã.


10h00 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


O Exercito de Sua Majestade

LONDRES - Esta eh a soh a quarta ou quinta vez que venho a Londres. Eh dificil orientar-se aqui. Nem os londrinos sabem andar pela cidade muito bem. Como todo mundo anda de Metro, pouca gente sabe se orinentar na superficie. No ano passado, estava aqui quando os funcionarios do Metro entraram em greve. A alternativa eram os onibus, com o resultado de que as ruas da cidade estavam cheias de gente andando que nem barata-tonta, sem a minima ideia de onde estavam.

Enfim, apos um compromisso academico, tirei a tarde para visitar o Museu Britanico, como sempre faco. Museus, em especial museus grandes como este, o Louvre, a National Gallery, o Museu de Historia Natural de Paris, os Museus de Ciencias daqui e de Munique, por exemplo, comteem mundos dentro de mundos dentro de mundos. Visitar cuidadosamente cada um deles eh programa para varios anos.

Museus desse tipo sempre me fazem sentir de um certo jeito. Somos expostos a uma colecao inimaginavel de objetos, roupagens, joias, utensilios, armas, moedas, bichos empalhados, esculpidos, cinzelados, gravados, conservados em formol, de corujas e gatos egipcios a monumentais touros alados assirios, bodes e cavalos e caes, caixinhas com efigies, mobiliario, conchas, imensos paineis entalhados em granito representando Assurbanipal cacando de leoes a asnos selvagens. E livros, de anatomia, de curiosidades, atlas, travelogues (um travelogue eh isto o que estou fazendo neste instante), roupagens, vasos, cestaria, escudos, espadas e mais um milhao de coisas.

O que me faz sentir de um certo jeito eh: quem foi que, com suas maos, laboriosamente produziu cada um daqueles objetos, escreveu cada um daqueles livros, gravou cada uma daquelas estampas? Esquecidos hoje, na sua esmagadora maioria, foram eles que fizeram o nosso mundo.

Tento nao pensar em como aquilo tudo acabou por ser reunido neste museu monumental. Mas na face lateral da pedra da Roseta (em que um mesmo texto gravado em grego e hieroglifos demoticos e hieraticos permitiu a Champollion decifrar a escrita egipcia), exposta aqui, estah estampado, em grandes letras: "Captured in Egypt by the British Army, 1801".


16h09 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


A ponta do tapete

BERLIM - Este que vos escreve tem advertido sistematicamente que sao infundadas as crencas, disseminadas por alguns, de que, com a cassacao de parlamentares (os que forem afinal cassados), a crise do mensalao tenderia a abater-se. O tapete mostra que essa crise vai durar até as eleicoes de 2006. Toda ponta de tapete que se levanta -- e esse tapete tem um monte de pontas -- revela novos fatos e testemunhos dos malfeitos concretos que alimentaram o valerioduto. Basta procurar direito a origem do dinheiro e se descobre o inevitavel, a saber, que dinheiros passados por debaixo do pano sao dinheiros fraudulentos, originarios de corrupcao.

Contudo, mesmo à medida que o tapete vai mostrando a sujeira por debaixo, nao se divisam iniciativas para evitar que as mesmas falcatruas venham a ser cometidas no futuro -- a primeira delas a drástica reducao da liberdade de ocupar funcoes na adminsitracao pública por indicacao política, o mais notório dos motores da corrupcao. A questao é que, tanto para a situacao como para a oposicao, admitir que os cargos de confianca sao usados fraudulentamente pode ser entendido como confissao de culpa. Talvez por isso ninguém se mova.


19h07 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Bissextas - 1

BERLIM - Esta cidade sempre foi a mais animada da Alemanha. A irreverencia berlinense, o gosto de seus habitantes pelos cafés (estou aqui a trabalho, é bom esclarecer -- de toda forma, café aqui custa uma nota preta; mas nada como na Inglaterra. Em Heathrow, esperando a conexao, um cafe-latte custou quase cinco libras, ou seja, 30 reais -- pagos pela British Airways, bem entendido), bem, mencionava o gosto pelos cafés, pelas discussoes, era tema da literatura alema desde o século XIX. William L. Shirer, o jornalista que escreveu Ascensao e Queda do Terceiro Reich, vivia aqui. Em seu livro Diário de Berlim, dedica várias passagens a essa animacao e engajamento político. Nem a divisao do pós-guerra reprimiu essa vocacao.

Como cheguei no meio do dia, fui dar uma volta. Nao é a primeira vez que venho a Berlim, mas nao conhecia esta parte da cidade, que fica ao lado do Tiergarten (um parque sensacional no meio da cidade), na ex-área Oriental. Na época do muro, a parte ocidental ficou muito americaniyada, e depois da queda do muro os alemaes usaram a cidade como uma especie de experimento arquitetonico permanente. Abundam aqueles monumentos riquissimos e horrendissimos de aco escovado, vidro fume e todo tipo de revestimento modernex. Há quem goste.

Sempre achei a parte oriental muito mais interessante, uma mistura de edifícios do ante-guerra, muitos com as fachadas ainda crivadas de balas, e prédios do tipo "realismo socialista". O pessoal aqui adora meter a ronca nos conjuntos habitacionais socialistas, mas para quem vem do Brasil sao uma maravilha. Queria ver o que diriam sem vissem os prédios do BNH.


13h30 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Bissextas

(Quase tudo sem acentos. Teclado alemao é fogo.) BERLIM - No aviao, vindo de Londres para cá, leio no Times que o primeiro-ministro britanico Tony Blair sofreu sua primeira derrota no Parlamento. Numa poltrona um pouco à frente, manchete interna do International Herald Tribune pergunta "Será o comeco do fim?". Acontece que Blair tentou passar uma nova lei estendendo de 28 dias para 90 dias o prayo de detencao sem necessidade de ordem judicial para acusados de terrorismo. Nao conversou direito com a sua base e perdeu a parada. Em regime parlamentarista, isso é grave, pois indica fraqueza do governo, que passa entao a ser alvo de ataques especulativos. Numa dessas, pode acabar por cair. parlamentarismo tem essas vantagens. Por outro lado, imagine-se isso no Brasil. Seria um primeiro-ministro por semana.

 


13h24 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Balancetes e outras coisas

Ao visitante Maurício de Campos Araújo, que afirma que a Transparência Brasil "nunca fez nada" pelo país e que "trabalha com dinheiro público para sustentar os seus dirigentes". Pergunta "por que vocês não publicam os balancetes da ONG para o público saber aonde está sendo investido o dinheiro que vocês arrecadam e quem financia?"

Convido o sr. Campos Araújo a visitar o sítio da Internet da TBrasil (linkado aí do lado). Clique em "Quem somos" e depois em "Finanças". Ali podem ser encontradas, à disposição do público, as informações referidas. Quanto ao que fazemos etc., só posso convidá-lo a buscar no mesmo sítio indícios e informações pertinentes.


15h32 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Intervalo

Durante os próximos oito dias este blogue será atualizado apenas bissextamente, devido a compromissos impeditivos deste que vos escreve.

De forma a manter a bola mais ou menos andando, deixo aos visitantes a seguinte pergunta: Se estivesse em seu poder usar uma varinha mágica para dar jeito na corrupção brasileira, o que você faria? (Não farei sugestões de alternativas.) Pede-se evitar piadas. Se inevitável, pede-se que sejam boas.


09h23 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Lula no Roda Viva

Nada a declarar.

Adicionado às 16h25: Mas cometi um artiguete que está publicado no Observatório da Imprensa (aqui).


07h04 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


O bode da OAB

Essa iniciativa da OAB de discutir o possível pedido de impedimento do presidente da República soa muito esquisita. Na semana passada, o presidente do Conselho Federal da OAB anunciou que o órgão examinaria a questão. Hoje, o Conselho decidiu que não é o caso. O estranho nisso tudo não é a OAB decidir que não pedirá o impedimento. O estranho é que tenha contemplado a questão.

Parece coisa de bode na sala. Inventam um assunto que não estava em pauta e depois dizem que não é o caso. Fica-se desconfiando de que alguém anteviu o título da matéria no jornal: "OAB não vê motivos para impeachment de Lula", mexeu uns pauzinhos, inventou o bode e se acertou com alguém da OAB.

Espero que da presente observação não se deduza que este que vos escreve acha isto ou aquilo a respeito de um possível ou impossível, provável ou improvável, impedimento do presidente.


11h27 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


As respostas do presidente

Outro dia, acompanhando a iniciativa de Josias de Souza, que pediu a seus visitantes que formulassem perguntas que deveriam ou poderiam ser formuladas ao presidente da República em sua aparição, hoje, no Roda Viva, e de Ricardo Noblat, que em seguida sugeriu perguntas que os entrevistadores não terão coragem de fazer, este que vos escreve sugeriu que seus eventuais visitantes formulassem as respostas presidenciais às perguntas que lhe serão feitas. Aí vão algumas (incluo minhas próprias):

  • P. Presidente, por que essa mania de ser melhor do que FHC na globalização da economia? R. Caro repórter, nós não copiamos nenhum modelo neoliberal, não. Acredito que nossa ação tem sido voltada para as questões sociais como a Bolsa Família, o Fome Zero, o Primeiro Emprego e tantas outras, que levarão este país a um estado de desenvolvimento nunca visto. Eu estou certo de que, enquanto presidente deste país, iremos realizar o melhor governo dos últimos 50 anos.
  • R. PT?! Bom, eu não posso ser confundido com o PT... é claro que eu fundei o partido e sempre fui muito poderoso nele, mas eu não tenho nada a ver com o PT. Se o partido resolveu mudar eu não tive nada a ver com isso.
  • P: Presidente, o senhor sabia do esquema do Delúbio? R: Esquema? Que esquema?
  • P: Presidente, a quem o senhor se referia quando disse que foi traído? R: Às elites, que inventaram essa história de mensalão por despeito das conquistas de meu governo.
  • P: Presidente, o senhor entregou o Zé Dirceu aos leões? R: Claro que não, o deputado Dirceu é um velho companheiro e saberá defender-se dos erros que cometeu.

08h06 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Orelhas em brasa

O último parágrafo do discurso lido ontem na Granja do Torto pelo presidente norte-americano George W. Bush reza (conforme o texto publicado no sítio do Departamento de Estado dos EUA):

Governments across this hemisphere must be strong, must listen to the people, and must not squander their money. Governments across this hemisphere must be free of corruption. Governments across this hemisphere must be accountable -- and we must live by the same standard we set for others. By making the blessings of freedom real in our hemisphere, we will advance the cause of social justice and set a shining example for the rest of the world.

"Os governos deste hemisfério precisam ser fortes, ouvir o povo e não podem desbaratar o dinheiro do povo. Os governos deste hemisfério devem ser livres da corrupção [esse 'ser livres' é tradução literal, soando mal em português; não poderia ser traduzido por 'livrar-se']. Os governos deste hemisfério precisam prestar conta do que fazem -- e precisamos obedecer aos mesmos padrões que cobramos de outros. Etc."

Deixando de lado essa mania de político norte-americano passar lição de moral nos outros, e lembrando que a terceira pessoa do plural enfiada aí diz respeito a eles, norte-americanos, e não a nós, brasileiros, orelhas devem ter ardido no Planalto.

PS: Procurei a íntegra da tradução oficial para o português, para verificar como é que verteram esse trecho, mas não encontrei. Se alguém achar, agradecerei.


07h15 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Iolanda Huzak

Iolanda Huzak

Bom Jesus da Lapa/Bahia.

A fotógrafa Iolanda Huzak é uma dessas profissionais que cumprem o seu mister com discrição, constância e sensibilidade. Suas fotos sobre o trabalho infantil muito fizeram para denunciar essa prática no Brasil. É co-autora de dois livros: Crianças de fibra (Paz e Terra), junto com Jô Azevedo, e Serafina e a criança que trabalha (Ática), com a mesma Jô Azevedo e Cristina Porto. Veja uma galeria de suas fotos clicando na imagem.

Mais trabalhos de Iolanda, bem como de outros jornalistas e colaboradores, podem ser encontrados no sítio "Imagens do Trabalho Infantil" (aqui).


10h19 [   ] [ envie esta mensagem ] [Regras]


Lições de mestre

Ganha indulgências plenárias o eventual visitante que primeiro identificar onde se entreouviu a conversa reproduzida ao lado. 1) No estúdio de um professor livre-docente. 2) Na mesa cativa de um senador da República num botequim da praia de Boa Viagem. 3) No saguão da sede da OAB em Brasília.

— Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas idéias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da platéia; mas era muito melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as idéias; pode-se, com violência, abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum, nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida.

Mas quem lhe diz que eu...

Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de idéias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloqüente, eis aí uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas idéias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As idéias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.

Creio que assim seja; mas um tal obstáculo é invencível.

Não é; há um meio; é lançar mão de um regime debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete, o dominó e o whist são remédios aprovados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silêncio, que é a forma mais acentuada da circunspecção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da ginástica, embora elas façam repousar o cérebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a atividade perdidas. O bilhar é excelente.

Como assim, se também é um exercício corporal?

Não digo que não, mas há coisas em que a observação desmente a teoria. Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas de recreio e parada, é utilíssimo, com a condição de não andares desacompanhado, porque a solidão é oficina de idéias, e o espírito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.

Mas se eu não tiver à mão um amigo apto e disposto a ir comigo?

Não faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatórios, em que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa da atmosfera do lugar, ou por qualquer outra razão que me escapa, não são propícias ao nosso fim; e, não obstante, há grande conveniência em entrar por elas, de quando em quando, não digo às ocultas, mas às escâncaras. Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer coisa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das belas crônicas de Mazade; 75 por cento desses estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses — suponhamos dois anos — reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das idéias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim...

Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de quando em quando...

O trecho é do conto "Teoria do medalhão", de Machado de Assis. Os Contos Completos de Machado de Assis, primeira reunião integral dos contos do maior escritor brasileiro, coligida por este que vos escreve, podem ser acessados no UOL, clicando aqui.

Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hidra de Lerna, por exemplo, a cabeça de Medusa, o tonel das Danaides, as asas de Ícaro, e outras, que românticos, clássicos e realistas empregam sem desar, quando precisam delas. Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento. Caveant, consules é um excelente fech