DEDICADO AO COMBATE À CORRUPÇÃO, À PROMOÇÃO DO ACESSO A INFORMAÇÃO E A TEMAS INCIDENTAIS
Este blogue deixou de ser atualizado com regularidade. Publicam-se aqui apenas artigos do autor aparecidos em outra parte e notas ocasionais, ditadas pelas circunstâncias.
Aprenda no Excelências sobre o histórico político dos deputados eleitos para a Câmara dos Deputados. Clique na imagem.
Da capa do livro Tudo em Família... -- A corrupção dos poderes político e judiciário de Portugal e da Comissão Européia dos Direitos do Homem, de Vasco de Castro Pereira da Silva
O juiz que fuzilou um vigia no Ceará foi condenado pelos desembargadores do Tribunal de Justiça daquele estado a 15 anos de prisão e à perda do cargo. Mas não do salário. O assassino receberá para mais de R$ 14 mil por mês. Um dos argumentos usados pelos desembargadores para justificar a manutenção do privilégio foi que o agora ex-juiz terá de pagar indenização à família da vítima. Montante: R$ 1 537 por mês. Ora, se foi essa a justificativa, mais justo seria destinar os mil e poucos para o juiz e obrigá-lo a pagar R$ 12,5 mil mensais à família do vigia assassinado. O juiz está preso no batalhão do Corpo de Bombeiros. É que no Brasil portador de diploma de curso superior tem direito a prisão especial. Sendo juiz, então...
A pior impunidade brasileira é a que acompanha o massacre cotidiano que a elite comete contra as classes populares. Isso de prisão especial e salário nababesco como recompensa de crime é um pedaço.
Gestalt. O pessoal quer porque quer que enxerguemos
apenas o vaso da reforma política, e deixemos de lado os rostos dos valerianos.
As entrevistas e declarações de ontem do deputado Aldo Rebelo só fazem
aumentar a convicção de que sua presença na Presidência da Câmara dos
Deputados representa um valioso estímulo à operação lava-gente.
Vejamos por quê.
Conforme previsto, Rebelo passou imediatamente a dedicar-se com exclusividade
à promoção da reforma política como solução para todos os males. A certa altura
de entrevista concedida a um âncora televisivo, Rebelo afirmou mais ou menos o
seguinte (quase literal): "É opinião unânime que a crise política que
atravessamos tem origem no financiamento eleitoral. Isso mostra que precisamos
adotar o financiamento público exclusivo de campanhas, e para isso devemos
aprovar a emenda constitucional que amplia o prazo de alteração das regras
eleitorais até 31 de dezembro."
Ora, ora, ora. Primeiro que não é opinião unânime coisa nenhuma. Esse é só o
mantra que a turma inventou para justificar os crimes expostos pelo valerioduto.
Segundo, e gravíssimo, Rebelo mostrou nessa frase que
incorporou como sua a defesa dos valerianos -- ninguém pegou dinheiro para
embolsar, comprar lanchas, apostar nos cavalinhos, remunerar moçoilas ou
moçoilos da noite ou o que seja, mas para ressarcir dívidas eleitorais. Rebelo
dá isso como favas contadas. Terceiro, reafirma que o pessoal não vai hesitar
nem mesmo ante o impeditivo constitucional. Vão tentar o golpe da emenda Ney
Lopes.
Conforme previsto hoje de manhã (ver a subnota Podem escrever, abaixo), o presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo, já se pôs a campo para tocar a reforma política. De acordo com o informado nas Últimas Notícias do UOL, "o Planalto quer prioridade para a votação dessa reforma". É a operação lava-gente a pleno vapor. Colocam a culpa do mensalão na legislação eleitoral, empreendem uma mudança de afogadilho que só interessa aos políticos e posam de bacanas como promotores da "reforma". Quando deveria ser óbvio que reforma política não tem absolutamente nada a ver com propinagens oriundas de direcionamento de licitações, leniência na fiscalização de contratos etc. A respeito de tudo isso, das reformas políticas propostas e assim por diante, ver a nota Calma lá, do dia 23, bem como outras, anteriores.
O artigo seguinte sairá amanhã em coluna que este que vos escreve mantém no
Diário do Comércio de São Paulo:
A operação que levou à eleição do deputado Aldo Rebelo à Presidência da
Câmara dos Deputados foi emblemática ao exibir as vulnerabilidades que afetam
nossas instituições e que propiciam a corrupção. No caso, a corrupção nas
relações entre o Executivo e o Legislativo.
Antes de prosseguir, convém esclarecer que tais falhas não foram inventadas
pelo atual governo, nem se limitam à esfera federal. Todos os presidentes da
República, governadores de estados e prefeitos municipais e todos os
parlamentos, do federal à menor das municipalidades, envolvem-se numa dança
negocial que responde por muito da dissolução dos costumes políticos. A menção
ao presidente Lula, ao deputado Aldo Rebelo e a determinados partidos é feita
porque aconteceu ontem (fora alguns detalhes escabrosos peculiares ao momento
presente). Trocando-se os partidos e os personagens, vê-se o mesmo todos os
dias, por todo o país.
De modo a assegurar a eleição de um parlamentar alinhado para presidir a
Câmara (intenção que em si não tem nada de imprópria), o Palácio do Planalto
tomou as seguintes providências, entre as conhecidas (é claro que pode ou mesmo
talvez deve ter havido outras manobras, não divulgadas): “liberou” cerca de R$
500 milhões em verbas orçamentárias oriundas de emendas de parlamentares que
estavam contingenciadas. Fez o mesmo com para mais de R$ 600 milhões de verbas
do Ministério dos Transportes.
O poder que o Executivo tem de contingenciar (a saber, bloquear a aplicação)
e descontingenciar verbas orçamentárias é empregado como moeda de troca em
negociações políticas. Isso desvirtua o Orçamento e a política. Observe-se que o
presidente Lula vetou dispositivo da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2006 que
proibia o contingenciamento de emendas parlamentares.
A não-obrigatoriedade do cumprimento do Orçamento é uma causa histórica de
corrupção e ao mesmo tempo uma causa da debilidade do planejamento estatal, que
justifica o diagnóstico unânime de que, entre nós, o Orçamento é uma peça de
ficção. Há prefeituras por aí em que ao prefeito se permite contingenciar 100%
do Orçamento.
Evidentemente, não se pode gerir adequadamente estruturas complexas como são
as do Estado sem rigor orçamentário. Programas geridos pelo Estado são de longa
maturação e exigem continuidade. Contingenciar a torto e a direito compromete
gravemente a eficiência do Estado, prejudica a prestação de serviços, afeta a
capacidade de investimento etc. etc. etc.
Os governantes costumam afirmar que seriam “obrigados” a contingenciar porque
a economia é volátil (o que não tem sido verdade há anos), que as necessidades
sociais são cambiantes (o que é embromação e não quer dizer nada), que precisam
“ter liberdade” (o que é o anti-governo). Na verdade, contingenciam para fazer
negociatas políticas.
Tornar obrigatório o cumprimento do Orçamento em todas as esferas, o que só
se pode fazer por emenda constitucional, é necessidade estratégica para o país.
O principal motivo é econômico, mas a medida traria salutar alteração na forma
como o Executivo se relaciona com o Legislativo.
Não faz nenhum sentido que uma emenda introduzida no Orçamento por um
parlamentar, votada e aprovada pelos seus pares, seja meramente desconsiderada
pelo chefe do Executivo. Impedir que isso aconteça faria com que manobras como
as que foram empregadas no decorrer desta semana para eleger Aldo Rebelo não
fossem mais possíveis. Os parlamentares não teriam mais que mendigar
“liberações” pelos ministérios, vendendo a alma ao diabo para emplacar suas
emendas e, assim, cumprir o que prometeram a suas bases eleitorais. A qualidade
da relação política melhoraria.
Eis aí uma emenda constitucional que o Parlamento poderia muito bem votar sem
receio de sofrer vetos, uma vez que o presidente da República não pode vetar
esse tipo de iniciativa. Por que isso não acontece?
A resposta talvez possa ser encontrada no fato de que os parlamentares são
sempre candidatos potenciais, em especial a prefeito, e portanto omitem-se
preventivamente.
Diversas instituições internacionais publicam uma grande variedade de indicadores da vida econômica e social. Competitividade, percepção de corrupção e por aí vai. Com demasiada freqüência, quem consome esses indicadores é levado por raciocínios que concluem muito mais do que a metodologia permite. Um exemplo apareceu hoje no Estado de S. Paulo e no Globo. O primeiro, para noticiar a queda da posição do Brasil no índice de competitividade do World Economic Forum, deu em chamada de primeira página e manchete de seu caderno de Economia que "Corrupção derruba competitividade no país". Dentro, o presidente do Ciesp, Claudio Vaz, é citado no sentido de que "Todo mundo está bastante deprimido com a corrupção e, por isso, tende a ser mais rigoroso na avaliação das instituições". No Globo, Miriam Leitão afirma que a crise política teria levado o WEF a "jogar o Brasil oito degraus abaixo na classificação de competitividade". Outra matéria do Globo, também manchete do caderno de Economia, diz o mesmo. (A Folha barrigou o assunto.)
Tudo bobagem. O índice do WEF foi compilado a partir de entrevistas feitas aí por volta de fevereiro ou março de 2005. O valerioduto não pode ter nada a ver com a posição do Brasil nesse ranking.
Quando a Transparência Internacional divulgar seu indicador, o que acontecerá no decorrer de outubro, não faltará quem venha a fazer deduções a partir do mensalão. Também será bobagem, uma vez que este indicador é uma média móvel de três anos e, além disso, o número de 2005 incluirá uma boa parte de opiniões colhidas entre o final de 2004 e o início de 2005.
Podem escrever: Entre hoje e amanhã, o novo presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo, moverá céus e terras para emplacar sua promessa de campanha de votar a pseudoreforma política oriunda do Senado (o projeto Bornhausen/José Jorge, sobre o qual ver o corpo desta postagem). Provavelmente, ele e o presidente do Senado, Renan Calheiros, também tentarão enfiar goela abaixo a emenda constitucional Ney Lopes, que estende até 31 de dezembro o prazo de modificação das regras eleitorais para as eleições subseqüentes, que é hoje de um ano. Isso terá como finalidade aprovar o financiamento público exclusivo de campanhas eleitorais. Essas manobras serão operadas não por alguma razão "republicana" (para usar a inestimável expressão do ex-deputado Roberto Jefferson), mas porque faz parte da operação lava-gente que pretende liberar geral a turma do mensalão por conta de pretensas causas eleitorais.
A lógica é a seguinte: Os crimes cometidos pelos mensaleiros e seus alimentadores não foram crimes, mas deslizes inspirados pelo modelo de financiamento eleitoral. Vasmos então mudar as regras de financiamento, de modo que não é mais necessário ir atrás dos malfeitos do mensalão.
Conforme anunciado, realizou-se ontem debate na Folha de S. Paulo a respeito de reforma política, com a participação do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, o advogado Rubens Approbato Machado, o também advogado Adilson de Abreu Dallari (substituindo o presidente da Fiesp. Paulo Skaff) e este que vos escreve. O resumo sairá na Folha de amanhã. Basicamente, houve bastante concordância entre as posições de Wanderley Guilherme dos Santos e este que vos escreve no que tange a maior parte dos assuntos de fundo: a preeminência da política e o risco de cair em armadilhas retóricas fáceis que escamoteiam a realidade histórica e prática. Em síntese, o que este que vos escreve disse foi o seguinte:
Reforma política que não trate do problema da representação não é reforma política. No Brasil, o poder econômico é sobre-representado e as classes populares sub-representadas. No Brasil, o grande eleitor é o dinheiro.
Disso não se deve depreender que a solução seria abolir o financiamento privado, como alguns querem. Isso simplesmente teria o efeito de levar o que hoje é doado em Caixa Um para o Caixa Dois. É a “solução Roberto Jefferson” às avessas. Jefferson queria eliminar a obrigatoriedade de declaração de doações, transformando assim o Caixa Dois em Caixa Um.
Em particular, a atual agitação em torno de reforma política tem motivação errada, a da corrupção. Faz parte, assim, do que tenho chamado de processo de lavagem de gente. Em vez de perseguir as causas da corrupção, atribui-se tudo ao sistema político-partidário, em particular o modelo de financiamento eleitoral. Ora, o que tem a ver com financiamento eleitoral o direcionamento de licitações públicas, a leniência na fiscalização de contratos, a promulgação de legislações que favorecem inteiros setores econômicos, a inadimplência de agências reguladoras e todos os demais mecanismos da grande corrupção? Nada, obviamente. A relação é nenhuma.
Centrar a atenção em reforma política é aceitar tacitamente como razoável a desculpa dos beneficiários do valerioduto. O sujeito leva uma grana na boca do caixa, afirma que aquilo foi usado para pagar dívidas eleitorais e fica tudo numa boa. Essa é a real operação por trás da urgência, que agora se pretende urgentíssima, da reforma política.
Pretende-se até emendar a Constituição para permitir ampliação do prazo de mudança de regras eleitorais, que vence em 30 de setembro. Trata-se de golpe à Constituição, simplesmente.
Quanto ao projeto Bornhausen/José Jorge, que a Câmara dos Deputados poderá votar até sexta-feira (como aliás prometeu o deputado Aldo Rebelo), é o caso de perguntar: A quem interessa? A nós, eleitores, ou aos interesses de políticos? Vejamos alguns pontos:
Redução do tempo de campanha. Isso quer dizer que os candidatos novos terão menos tempo de se apresentar ao público. Ganha quem já está lá. Por que isso seria bom para nós?
A proibição de usar trucagens, imagens externas etc. em programas de TV. Ou seja, empobrecer a informação exposta. Outra vez, isso é bom para nós por quê?
A proibição de veicular resultados de pesquisas eleitorais a partir de 15 dias antes da votação. Isso só beneficiará os picaretas, que de todo modo veicularão pesquisas fajutas pela Internet e, daí, de forma disfarçada, para o resto dos veículos. De novo, é bom para nós?
Veja aqui as 104 matérias que apareceram nos jornais a respeito do assunto entre 2004 e 2005, até ontem.
Como acontece todo ano mais ou menos por esta época, o Tribunal de Contas da União envia ao Congresso uma lista de obras financiadas com verbas federais e cuja condução apresenta irregularidades. A idéia é que a informação seja usada pelos parlamentares na confecção do Orçamento do ano que vem, a saber, evitando despejar dinheiro ralo abaixo antes que as irregularidades sejam sanadas. No ano passado, foram 70 obras, correspondendo a um valor total de R$ 3 bilhões. Este ano, são 81 obras, importando em R$ 2 bilhões.
Na foto, exclusiva deste blogue, protótipos de bolas que o Departamento de Árbitros da CBF está testando para introdução no Campeonato Brasileiro.
Duas perguntinhas à valorosa Confederação Brasileira de Futebol:
1. Se casas de apostas são capazes de analisar resultados de jogos de acordo com as arbitragens e determinar que há probabilidade de interferência de tramóias, por que a CBF é incapaz de fazer o mesmo? 2. Se alguém processar a CBF por incúria na administração do futebol, facilitando por inépcia a ação de quadrilheiros do apito, de onde a entidade vai tirar o dinheiro? Não vale responder que é da bilheteria dos jogos.
O interregno de uma hora e meia entre o anúncio do resultado do primeiro turno da eleição para a Presidência da Câmara dos Deputados e o início da votação do segundo turno, às 18h00, será preenchido por frenéticas negociações para cabalar votos. José Thomaz Nonô e Aldo Rebelo empataram com 182 votos, Luiz Antônio Fleury Filho (PTB) teve 41, Ciro Nogueira, do PP, teve 76 e Alceu Collares, do PDT, teve 18 votos. Os 18 votos de Collares provavelmente irão para Nonô. Desconfia-se que a candidatura de Fleury era na verdade "laranja" de Aldo, sensação reforçada pelo fato de Fleury ter-se reunido ontem com o presidente da República. Nogueira, auto-proclamado herdeiro de Severino Cavalcanti, representa o baixo clero. Nem dá para imaginar o que será negociado com eles. Mas se pode intuir quem tem mais chances: Nonô não tem nada a oferecer, e Aldo tem as burras oficiais, na forma de liberação de emendas (R$ 500 milhões), projetos no âmbito do Ministério dos Transportes (algo aí para mais de R$ 600 milhões) e até mesmo um ministério inteiro.
A Folha e o Instituto de Direito Político e Eleitoral realizam hoje, às 20h, o terceiro e último debate sobre o tema Reforma Política e Eleitoral. Estarão à mesa Claudio Weber Abramo, diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, o advogado Rubens Approbato Machado, ex-presidente nacional da OAB, Paulo Skaf, presidente da Fiesp, e o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos. O evento, gratuito, será no auditório da Folha (al. Barão de Limeira, 425, São Paulo). Reservas: tel. 0/xx/11/ 3224-3473 (das 11h às 12h30 e das 14h às 19h) ou pelo e-mail eventofolha@folhasp.com.br.
A foto publicada hoje na Folha, em que aparecem Sandro Mabel e Valdemar da
Costa Neto, entre outros, ladeando o candidato à Presidência da Câmara, Aldo
Rebelo, é qualquer coisa. Maquiavel definiu a política como "a arte do
possível". Para esse pessoal, parece mais a arte do impossível. Acresce a "liberação" de R$ 500 milhões do orçamento referente a emendas parlamentares, o "descontingenciamento" de mais de R$ 600 milhões de dinheiro do Ministério dos Transportes e sabe-se lá o que mais. (Pôster do filme Nettoyage à Sec (lavagem a seco), dir. Anne Fontaine,
1997.)
Da outra vez, as indecisões a respeito da sucessão na Presidência da Câmara dos Deputados deram em Severino Cavalcanti. Ou seja, não vale a pena subestimar o oportunismo de muitos deputados. O baixo clero tem dois candidatos, Ciro Nogueira, o das amazonas democráticas (ver abaixo), e João Caldas. Se as forças sensatas não tomarem tento, não é de modo nenhum impossível que um deles emplaque.
Anuncia-se que alguns integrantes do PT deixam o partido. Que não se conclua demais a partir disso. Se a história ensina alguma coisa, é que a maioria dos descontentes permanecerá dentro do partido, por falta de alternativas viáveis, e será devidamente enquadrada pelo Campo Majoritário, o qual continua virtualmente hegemônico. Não se desmonta (ou se "refunda") um partido orgânico como o PT como quem vai às jabuticabas.
Rola na França um escândalo envolvendo o Groupe Thales, que atua na área de defesa. Um executivo que foi despedido da empresa acusou-a de pagar subornos a seus clientes estrangeiros. Michel Josserand, ex-CEO da THEC, afirmou em entrevista publicada hoje no Le Monde que entre 1% e 2% do faturamento total (em 2004, foi de Euro 10,3 bilhões) do grupo seriam investidos em propinagens. Conforme Josserrand, o Thales teria fraudado o programa "Petróleo por Comida" da ONU e teria fornecido armas químicas ao Iraque. O grupo nega. Conforme a agência espanhola EFE, o Thales estaria tentando vender ao Brasil submarinos convencionais da classe Scorpène, que fabrica. Cada um custa US$ 300 milhões. O Chile comprou dois.
Informa-se que o deputado Ciro Nogueira (PP-PI), corregedor da Câmara dos
Deputados, arregimentou 50 moças para promover sua campanha para a
Presidência da Casa (na foto, exclusiva deste blogue, as cironetes
quando se preparavam para tomar de assalto o Salão Verde).
O caso Banestado ficou atravessado na garganta. Retomá-lo do ponto em que parou seria fundamental para esclarecer muitas das dúvidas que estão aparecendo no escândalo Correios/mensalão.
No final de 2004, a CPI do Banestado dava sinais de que terminaria no nada,
como acabou por acontecer. Na época, a Transparência Brasil divulgou
manifestação que dizia:
Como é notório, ao longo do desenvolvimento de seus trabalhos a CPI do
Banestado perdeu gradualmente a sua credibilidade. Foram diversas as
circunstâncias que levaram a esse estado de coisas:
A possível interferência de motivações políticas nas atitudes expressas por
representantes das diferentes linhas partidárias, acompanhadas de acusações de
parte a parte;
A desconfiança de que convocações para depoimentos e as inclusões e
exclusões em listas de investigados e indiciados possam ter sido sujeitas a
influências que não deveriam estar presentes, políticas ou de outro tipo;
A ausência, nas listas de possíveis indiciados divulgadas, de indivíduos
notórios pela desonestidade;
A proposição de que indivíduos que tenham realizado lavagem de dinheiro e
que venham a ser indiciados pela CPI possam vir a ser anistiados.
Nessas circunstâncias, qualquer relatório que venha a emergir da CPI e
do plenário das Casas legislativas deixará de cumprir o requisito mais
fundamental para sua própria razão de ser, ou seja, assegurar à opinião pública
que a justiça será bem servida. O escárnio praticamente universal com que a CPI
do Banestado já é referida produz desgaste do próprio instituto das CPIs.
A principal conseqüência desse estado de coisas é que não se pode mais
considerar que haverá um grupo de suspeitos, cujos nomes serão dados a conhecer,
e um grupo de pessoas que, por não estarem incluídas em tal lista, serão
inocentadas.
Na verdade, todas as pessoas físicas e jurídicas que realizaram
operações irregulares de remessa de divisas para o exterior por meio do
Banestado devem demonstrar a idoneidade de suas ações.
A Constituição e as leis brasileiras atribuem a responsabilidade da
fiscalização, da investigação e do controle a determinados organismos. São eles:
a Secretaria da Receita Federal; a Controladoria-Geral da União; os Tribunais de
Contas da União, dos estados e dos municípios que os possuam; o COAF; os
Ministérios Públicos Federal e Estaduais; a Polícia Federal; os órgãos de
controle interno dos estados.
Por outro lado, a CPI não poderia deixar de determinar a identificação
de todos os beneficiários finais das transferências de recursos. Envidar
esforços para levantar os titulares das contas destinatárias dessas
transferências é uma necessidade que não pode deixar de ser atendida.
Outra medida que a CPI não pode deixar de adotar é a divulgação de
todos os nomes que realizaram as operações suspeitas. A inclusão de apenas
alguns nomes em lista de indiciados tornará estes culpados e inocentará
automaticamente os restantes - e isso não porque a CPI tenha realizado
investigações convincentes e ponderado as evidências com a necessária isenção,
mas por motivos dos quais a opinião pública tem todos os motivos para
desconfiar.
Caso não se adote essa providência, aqueles de fato inocentes
vir-se-ão na mesma categoria de administradores públicos corruptos, sonegadores
de impostos, traficantes de drogas, de armas e de seres humanos,
contrabandistas, falsificadores, doleiros e outros transgressores que, por
razões fortuitas, serão deixados de fora.
Reciprocamente, a opinião pública não tem nenhum motivo para confiar
em que todos aqueles indiciados pela CPI são de fato suspeitos de terem cometido
irregularidades.
Caso não seja dada oportunidade para que os inocentes demonstrem a boa
fé de seus atos, todos permanecerão nas sombras, submetidos ao risco de sofrerem
chantagens e constrangimentos.
Em 8/9/05 escreveu-se aqui que escândalos de corrupção no futebol deviam
ser coisa de europeu. A matéria da Veja desta semana, mostrando como apostadores
entraram em conluio com pelo menos dois árbitros (ver aqui), coloca as coisas no lugar -- de novo, a Europa
se curva diante do Brasil.
Da entrevista concedida à IstoÉ desta semana por Sálvio Vilar, caminhoneiro, o qual deu a pista para o estouro de um esquema de tráfico de drogas disfarçado de transporte de carne:
ISTOÉ – O high society carioca se chocou ao descobrir que seus restaurantes favoritos serviam para lavar dinheiro do narcotráfico. Isso é surpresa para você? Sálvio – É a elite que sustenta o tráfico. E não são só restaurantes. Existem outras coisas que vão vir à tona, supermercados, motéis, hotéis. O que quebraram agora é só a pontinha do iceberg. Se a Polícia Federal continuar, vai estourar o resto do iceberg. Você ainda vai ver cair muita gente grande, gente que você nem sonha. ISTOÉ – É possível um esquema desses funcionar sem o envolvimento do poder público? Sálvio – Claro que não. O suporte da quadrilha é formado por deputados federais, estaduais, juízes, delegados e vários policiais. Sem isso, nenhuma quadrilha funciona.
A liberação pelo Palácio do Planalto de cerca de R$ 500 milhões do Orçamento correspondentes a emendas de parlamentares na bica da eleição para o novo presidente da Câmara dos Deputados mostra quão corruptivo é o poder conferido ao Executivo pela não-obrigatoriedade do cumprimento do Orçamento. Como pode determinar a seu bel-prazer se executará ou não o Orçamento votado pelo parlamento, o governante tem a sua disposição uma grande mala de dinheiro, um imenso mensalão oficial, que usa para comprar (republicanamente, claro) os apoios de que necessita. Se fosse obrigado a cumprir o Orçamento, esse poder desapareceria, desaparecendo junto o desvirtuamento que traz às relações com o Legislativo.
Aliás, a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2006, aprovada pelo Congresso, continha um dispositivo que proibia o Executivo de "contingenciar" (ou seja, não cumprir) verbas oriundas de emendas parlamentares. O dispositivo foi um dos vetados pelo presidente da República na quinta-feira. Estima-se que em 2006 o Orçamento incluirá cerca de R$ 3 bilhões resultantes de emendas. Um dinheirão para negociar em ano eleitoral.
Em tempo: O uso corruptivo da liberação de emendas de forma alguma foi inventado pelo presente governo, e não se limita à esfera federal. É uma praga histórica que afeta todas as esferas, desvirtuando as relações entre Executivos e Legislativos.
Esta saiu hoje na coluna de fofocas (intitulada, a coluna, "Tía Zelmira") do
jornal costarricense Diario Extra. Vai no original, para não perder o
sabor:
A comer manzanas Karen Brenes, Vanessa Mathiew
y Sussy Dávila, conocidas modelos y experimentadas bailarinas costarricenses,
partieron ayer con destino a Nueva York para cumplir un contrato de una semana
que las llevará a una gira por las principales discotecas de Nueva York; las
chicas también estarán en Nueva Jersey. Karen Brenes comentó que este es el
primero de una serie de viajes que harán promovido por un costarricense que se
dedica al mercadeo y que tiene muchos contactos en la comunidad latina de Nueva
York.
A matéria é acompanhada de foto de uma das moçoilas, a qual, por recato, não
é aqui reproduzida.
E ainda dizem que a imprensa brasileira anda decadente.
Pesquisa encomendada pelo jornal La Prensa de Manágua revela que 70% dos nicaragüenses estão dispostos a deixar o país. Os EUA são o destino predileto, of course, e em segundo lugar aparece a Costa Rica. Razões principais: Pobreza e desemprego. E por aqui se faz uma novela em que uma mocinha debilóide tem como objetivo de vida viver na "América". Argh.
Informa-se que nove deputados já anunciaram a intenção de concorrer à presidência da Câmara dos Deputados. Dois deles, Jair Bolsonaro e João Caldas, já formalizaram a intenção. Espera-se que até 14 parlamentares possam concorrer ao cargo. Bolsonaro só quer pertubar, mas João Caldas é o herdeiro presuntivo de Severino Cavalcanti. Este último era conhecido como o rei do baixo clero. Então Caldas deve ser o delfim do baixo clero.
Não deixa de espantar que apareçam tantos candidatos. Não apenas o trauma severino, mas principalmente a alta temperatura da Câmara nos meses até a eleição de 2006, aparentemente não incutiram nos deputados a adequada dimensão da crise de credibilidade da instituição, que exigiria um nome de respeito e consenso. Nomes de respeito decerto existem. O problema é o consenso em torno de objetivos suprapartidários -- isso não tem chance de existir.
Embora seja improvável que o baixo clero prevalesça outra vez, a perspectiva de uma disputa acirrada traz preocupação.
A operação lava-gente em curso tem como uma de suas peças fundamentais a ficção de que os crimes evidenciados no escândalo Correios/mensalão se deveriam às regras de financiamento eleitoral e às condições em que eleições são conduzidas. Como se desviar dinheiro público no exercício da função pública tivesse alguma coisa a ver com custos de eleições, financiamento de candidatos e partidos etc. A estratégia tem como fundamento responsabilizar o sistema político para, como por passe de mágica, desresponsabilizar os autores dos crimes.
Mas quem favoreceu empresas em licitações e levou propina por isso, incorporada ao Caixa Dois de partidos, cometeu crimes, não "deslizes eleitorais". É necessário não perder isso de vista.
Seja como for, a própria formulação das reformas pretendidas pelos políticos satisfaz ao interesse deles, políticos. Será que satisfaz aos nossos interesses, como eleitores? Vejamos algumas proposições:
Reduzir o tempo de campanha eleitoral. Isso evidentemente favorece quem já está lá, e desfavorece candidatos novos, que terão menos tempo de se apresentar ao eleitorado.
Proibir que programas eleitorais incorporem trucagens, imagens externas etc. Isso significa que o eleitor receberá menos informação. Se vingar, se tornará impossível, por exemplo, mostrar o adversário em confraternização com os implicados em escândalos. Isso é bom? Dificilmente.
Proibir a divulgação de pesquisas eleitorais no período de 15 dias antes da eleição. O eleitor receberá menos informação. Essa particular proposição se baseia numa ilusão, a de que pesquisas influenciam o eleitor, quando na verdade não há nenhuma evidência nessa direção. Como é impossível evitar que pesquisas circulem na Internet e sejam referidas obliquamente na imprensa, a medida, se adotada, na prática estimulará os aventureiros, que divulgarão pesquisa fajutas que se tornarão indistinguíveis das genuínas. Aceitar isso é dar tiro no próprio pé.
Quem assistiu ao programa do PL ontem à noite na televisão teve uma avant-première de como será a campanha eleitoral do ano que vem. Um abantesma todo de branco circulava por uma sala cheia de gente trabalhando (copiaram a idéia da campanha de Lula em 2002, quando um monte de intelectuais do partido se prestou a uma encenação ridícula, de que estavam preparando o programa do candidato). Mensalão, nem pensar: tudo não passou de deslizes contábeis, que empalidecem ante a missão maior de pagar dívidas eleitorais. O ex-deputado Valdemar da Costa Neto, ex-presidente do partido e que, apanhado com a boca na botija valeriana, renunciou para não ser cassado, posava de estadista. Preparem-se, porque vem mais disso por aí.
O Ministério da Justiça anuncia uma novidade: a inclusão, num banco de
dados unificado, das reclamações contra empresas recebidas por Procons (endereço
aqui). O Procon
de São Paulo já disponilizava esse serviço, em seu âmbito, bem como outros, bem
úteis (como por exemplo os juros praticados em créditos ao consumidor por todos
os bancos, cartilhas diversas com respostas a dúvidas freqüentes em diversas
áreas etc.). Outros Procons também já tinham serviços equivalentes. A integração num sistema centralizado amplifica o alcance desse tipo de informação essencial.
O subterfúgio adotado por 100% dos implicados no escândalo do mensalão, de que os dinheiros que retiraram em espécie na boca do caixa serviram para pagar dívidas eleitorais, ainda vai nos dar mais dor de cabeça do que já temos. Como os parlamentares das CPMIs e Conselho de Ética sequer perguntam os nomes e CNPJs dos alegados credores, a aceitação de uma desculpa dessas decerto está sendo muito bem anotada por traficantes, ladrões de carga, contrabandistas, mercadores de escravas brancas etc. etc. Nas próximas eleições, teremos uma inflação de candidatos oriundos dessas áreas. A eles não escapará que a indisponibilidade política em ir às raízes da corrupção terá produzido uma azeitada lavanderia de dinheiro no atacado. Poderemos agradecer a inovação aos nossos próceres e causídicos.
Na mesma toada com que se dirigiu à ONU na semana passada, o presidente Lula disse hoje no programa de rádio "Café com o Presidente" que os países ricos precisam colaborar com os países pobres para diminuir a fome e a extrema pobreza no mundo e cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Ora, deixando de lado essa história de fome, que não é um problema brasileiro (é problema na África), o que não se entende muito bem é como se pode contribuir para reduzir a pobreza sem alterar a disparidade de renda. Como sabemos, o Brasil só perde em desigualdade de renda para Serra Leoa, que nem país direito é.
Diversos dos parlamentares acusados de terem se beneficiado dos esquemas do valerioduto e cercanias estão entre os 100 mais influentes do Congresso, segundo a respeitada avaliação do Diap (ver aqui a lista completa). Estão lá o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e os deputados João Paulo Cunha (PT-SP), José Borba (PMDB-PR), José Janene (PP-PR), Paulo Rocha (PT-BA), Pedro Henry (PP-MS), Professor Luizinho (PT-SP), Roberto Brant (PFL-MG) e Sandro Mabel (PL-GO). Valdemar da Costa Neto (PL-SP), que renunciou, também era tido como muito influente. Ah, claro, e Severino Cavalcanti.
No município pernambucano de João Alfredo, de onde vem o deputado Severino
Cavalcanti, a porcentagem de analfabetos entre a população maior de 25 anos é
nada menos de 53%. Já o porta-voz designado de Severino, o deputado João Caldas
(PL), vem de Itabeguara, Alagoas, onde foi vereador e prefeito. Itabeguara tem
uma taxa de analfabetismo adulto ainda maior: 58,5%. Dados do Atlas do
Desenvolvimento Humano no Brasil -- PNUD, IPEA, Fundação João Pinheiro.
Descobri hoje que os endereços eletrônicos dos senadores brasileiros são politicamente corretos. Assim, por exemplo, o endereço de Delcídio Amaral é delcidio.amaral@senador.gov.br, mas o da Ideli Salvatti, como os das demais senadoras, tem um "a" a mais, assim: ideli.salvatti@senadora.gov.br.
A charge representa o presidente norte-americano William Howard Taft (1909-1913) “lavando” seu secretário do Interior, Richard Ballinger, acusado de entregar imensas reservas minerais no Alasca para laranjas de uma empresa de mineração controlada pelo financista J. P. Morgan e pela família Guggenheim (a mesma do museu).
São cada vez mais alarmantes os sinais de que o desenvolvimento da crise Correios-mensalão desembocará no quase-nada. A operação lava-gente vencerá. A estratégia bacharelesca que inventou a desculpa das “dívidas eleitorais” para justificar a circulação de dinheiros ilícitos está funcionando às mil maravilhas. Ela é complementada pela declaração gratuita de que tudo é resultado do modelo de financiamento eleitoral vigorante no Brasil, como se fraudar licitações públicas tivesse alguma coisa a ver com motivações eleitorais. É interessante notar que, mesmo ante a impossibilidade de haver qualquer mudança na legislação referente a financiamento eleitoral antes do prazo fatal de 30 de setembro, o tema é mantido artificialmente na pauta. Uma discussão inútil, cuja única finalidade é reforçar a estratégia político-bacharelesca. Entre as conseqüências da operação lava-gente estão:
Dança dos suplentes
Com a cassação de Roberto Jefferson, assume sua cadeira o suplente Fernando Gonçalves. Gonçalves é mais um integrante da “bancada da bola”, formada por candidatos que foram financiados pela CBF ou clubes de futebol. Veja aqui. Em 2004 Gonçalves foi condenado por fraude contra o SUS, mas por conta de nossa velocíssima Justiça, como o fato aconteceu em 1990, o processo acabou por ser arquivado. Ler aqui mais sobre o novo deputado. Já o ex-bispo e agora ex-deputado Rodrigues é substituído por Reinaldo Lopes. Conforme suas contas eleitorais, sua eleição foi basicamente autofinanciada. (Ver seu perfil de financiamento declarado aqui.)
Vinga a proposição de que dinheiro roubado, se usado para pagar campanha eleitoral, é menos sujo.
Deputados e funcionários partidários venais não são perguntados sobre o destino do dinheiro que embolsaram. Aceita-se sem nenhuma discussão que usaram o dinheiro para pagar dívidas de campanha, sem que minimamente se indague quais foram os credores.
O cinismo das tramitações jurídicas ganha a esfera política, como é patente nas atitudes de todos os implicados, do mais alto ao mais baixo. Com isso, por exemplo, José Genoíno e José Dirceu igualam-se ao ex-bispo Rodrigues, a Severino Cavalcanti, a Valdemar da Costa Neto, a José Janene, a Sandro Mabel, mas não estão nem aí. Escudados na idéia de que dinheiro de Caixa Dois eleitoral seria menos ilícito do que dinheiro usado para entesourar, comprar cocaína ou pagar bacanais no Lago Sul, esperam esses políticos salvar a sua vida política. Vários conseguirão.
Fica sacramentado que dinheiro nasce em árvore, pois até agora nada se esclareceu sobre a origem dos recursos do valerioduto.
Outros dutos, certamente existentes, continuam funcionando e permanecerão ocultos.
Avoluma-se no Paraná o caso da parceria firmada em 1998 entre o estado (era
governador Jaime Lerner) e um consórcio de empresas privadas (com o nome de
Consórcio Dominó, é formado pela construtora Andrade
Gutierrez, pelo Banco Opportunity e pelo grupo francês Vivendi) no âmbito da
qual o grupo comprou 39,71% das ações da Sanepar, a companhia de saneamento do
estado. Acordo firmado posteriormente garantiu ao Dominó o controle
das diretorias de Operações e Financeira. O atual governo (Roberto Requião)
acha que isso configura o domínio do sócio privado sobre as decisões da empresa
(ler aqui a
evolução do caso).
Esse tipo de captura do Estado faz parte dos riscos acarretados pelas parcerias com o setor privado, quando não são feitas com cuidado.
Em 1° de setembro, escreveu-se neste espaço (“Operação lavagem de gente --
Primeiro round”) que, se o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados
recomendasse (como acabou por fazer) a cassação de Roberto Jefferson por ter
denunciado a existência do esquema do mensalão,
[...]os operadores da lavagem de gente ora em curso terão vencido o
primeiro round. O argumento para a cassação de Jefferson é de que não se teria
constatado mensalão. Portanto, quando chegar a vez deles, os beneficiários do
valerioduto poderão argumentar no Conselho de Ética que o próprio fato da
cassação de Jefferson deveria levar logicamente à absolvição dos valerianos.
Ontem, a Câmara cassou o mandato de Jefferson, como se esperava. Formalmente,
o fez a partir do relatório do Conselho de Ética (aprovando por unanimidade o
voto do relator, deputado Jairo Carneiro), no qual se lê, entre outras
maravilhas (ver a íntegra aqui -- aliás, bem difícil de encontrar):
É preciso deixar claro, no entanto, que no presente processo
[grifo do original], não conseguiu o Representado provar a participação dos
parlamentares que apontou no referido esquema do “mensalão”, o que dá
sustentação à tese da acusação de que agiu de forma leviana e irresponsável ao
fazer, sem provas, tais acusações, atingindo gravemente, além da honra pessoal
dos parlamentares citados e de todos os integrantes do PP e do PL, arrastados na
lama da generalização, a dignidade e a imagem pública da Casa como instituição.
Podem ter certeza de que os bacharéis já têm formulados os argumentos para
limpar a barra dos valerianos no Conselho de Ética, se é que o STF vai permitir
que cheguem lá antes de outubro de 2006: Roberto Jefferson “agiu de forma
leviana e irresponsável ao fazer, sem provas, tais acusações”. Conforme vimos
ontem (ver aí embaixo a nota “Reveladora liminar”), a Justiça estará sempre
pronta a aceitar argumentos especiosos para, ao contrário de esclarecer,
confundir.
O deputado José Dirceu entrou hoje no STF com pedido de extensão da liminar que o ministro Nelson Jobim concedeu a mandado de segurança impetrado por seis outros parlamentares do PT (ver aí em baixo), segundo o qual teriam tido cerceado seu direito de defesa. Neste país de bacharéis, manobras jurídicas prestam-se a isso: Não mudam nada na questão de fundo, só atrasam o processo.
O Moscow Times de hoje informa que o deputado Nikolai Pavlov, da facção nacionalista Rodina ("rodina" quer dizer "pátria" em russo), formulará projeto de lei para regulamentar a atividade de lobbying na Duma (Parlamento) russo. De acordo com o deputado, centenas de lobistas emboscam deputados nos gabinetes, na lanchonete, nos corredores e nos banheiros, oferecendo-lhes dinheiro. A regulamentação da atividade, segundo Pavlov, é o único jeito de reduzir esse assédio.
No Brasil, nenhum projeto de regulamentação de lobby consegue passar pelas Comissões do Congresso. Por que será?
Paulo Maluf, em entrevista a repórter do UOL News, na carceragem da Polícia
Federal: "A quentinha que servem aqui, eu não daria nem pro meu cachorro". Esse
é o sujeito que, antigamente, dizia que preso não tem direitos humanos.
Hilde Weber foi chargista na imprensa brasileira durante mais de quarenta
anos, na Tribuna da Imprensa e n'O Estado de S. Paulo. Esta
apareceu no Estadão em 1977.
Outra possibilidade é que se esteja fazendo média. Assim: Concedemos a liminar, mas julgamos depressinha contra os impetrantes.
A liminar que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson
Jobim, concedeu a mandado de segurança impetrado por seis deputados do PT
(ver aqui a matéria do Consultor Jurídico a
respeito) é bem reveladora de quão previsíveis são os caminhos da Justiça em
nosso país. Os deputados João Paulo Cunha (SP), Josias
Gomes (BA), Professor Luizinho (SP), Paulo Rocha (PA), José Mentor (SP) e João
Magno (MG) apareceram como beneficiários de retiradas oriundas de contas das
empresas de publicidade de Marcos Valério. Por isso, o relatório parcial emitido
há dias pelas CPMIs dos Correios e do Mensalão recomendou que fossem submetidos
a processo e averiguações no lugar apropriado. Esse lugar é a Corregedoria da
Câmara, que por seu turno recomendou a abertura de processo de cassação por
quebra de decoro parlamentar.
No mandado de segurança impetrado pelos deputados, eles argumentam que
tiveram cerceado seu direito de defesa, uma vez que não foram ouvidos na
Corregedoria. O ministro Jobim concordou ao menos em tese, o que significa que a
medida vale até que o mérito da questão (ou seja, o alegado
cerceamento do direito de defesa) seja julgado pelo próprio STF. Ainda não
se sabe exatamente quando isso virá a ocorrer.
Digamos que o julgamento do mérito seja favorável aos deputados. Eles terão
então de ser ouvidos pela Corregedoria. Falarão, chamarão testemunhas e por aí
vai, ao longo de semanas. Vencido esse périplo, e como se pode apostar
os rendimentos da família até o ano 3000 de que não haverrá nada de novo, a
Corregedoria emitirá recomendação à Mesa, de abertura de processo disciplinar
contra os deputados. A Mesa encaminhará à Comissão de Ética, onde os deputados
repetirão exatamente as mesmas coisas que têm dito pela imprensa, a saber, que
tudo não passou de limpíssimas operações de pagamento de dívidas de campanhas
eleitorais -- sobre as quais não se obrigam a fornecer maiores
esclarecimentos.
Com tudo isso, se passarão semanas, talvez meses, até que os deputados
cheguem à Comissão de Ética, onde de todo modo gozarão do direito de defesa
que reclamam. Em outras palavras, a manobra do mandado de segurança é só
procrastinatória, e o STF, devidamente, cumpriu o que dele se espera -- ajuda a
procrastinar.
BRUSELAS. El ex gobernante Augusto Pinochet habría recibió un soborno por un millón y medio de dólares para la adquisición de tanques armados provenientes de Holanda, según afirmó la compañía de ese país RDM. La información fue publicada por el periódico local De Volkskrant, que indica que el propietario de RMD, Joep Van Den Nieuwenhuyzen, aseguró que efectuó en 1998 dos pagos por un total de US$ 1,5 millones a un colaborador del ex senador vitalicio y señaló que no conoce el destino de ese dinero. Según De Volkskrant, esa cantidad fue depositada por cuenta de la compañía off-shore Eastview Finance, de las Islas Vírgenes, de la que Pinochet era accionista único, como lo determinó una investigación realizada en Estados Unidos. El pago había sido una "comisión" por la venta a Chile de 202 tanques armados del tipo Leopard, que ya no estaban en uso en el Ejército holandés, agregó el periódico. El pago del soborno surgió tras las investigaciones del juez Sergio Muñoz sobre la red de cuentas bancarias y empresas ficticias del general.
A aparição do coronel Lício Augusto Maciel no depoimento do ex-presidente do PT, José Genoíno, à CPMI do Mensalão, levado pela mão do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), faz parte dessas provocações que, aparentemente, se esgotam em si próprias. Maciel prendeu Genoíno na operação de repressão à guerrilha do Araguaia, na década de 1970. Bolsonaro, egresso da Aeronáutica, foi o mesmo que, quando do discurso de retorno do deputado José Dirceu à Câmara após sua saída da Casa Civil, gritava "terrorista", "terrorista".
A que interesses, exatamente, servem Bolsonaro e o coronel Maciel? A grupos militares nostálgicos da linha-dura? Mas esses grupos não têm poder nenhum hoje, nem poderiam almejar ter, sem agredir o bom senso.
Tampouco há qualquer lógica partidária na provocação. Bolsonaro é do PP, aliado ao PT. Não interesssa ao PP hostilizar o PT.
Resta a hipótese de que são uns doidos irresponsáveis.
O início do depoimento do ex-presidente do PT, José Genoíno, não traz nenhuma
novidade a respeito da estratégia que os implicados no escândalo do mensalão
estão seguindo. Genoíno só soube dos empréstimos contabilizados, não sabia de
nada a respeito de dinheiros de Caixa Dois e ignorava o que o ex-tesoureiro
Delúbio Soares fazia, seja na captação de recursos, seja na sua distribuição.
Embora, segundo ele, tivesse participado das tratativas de montagem de alianças
com outros partidos em 2002 e em 2004, jamais essas conversas passaram por
dinheiro. Não apenas isso, a Executiva do partido não sabia de nada, porque, no
PT, os membros são eleitos individualmente e têm autonomia. Ou seja, a
culpa foi toda de Delúbio Soares, e a Executiva do partido funcionava
coletivamente como aqueles três macaquinhos.
Por que, então, Genoíno saiu da Presidência do PT? Se as coisas de fato
funcionavam dessa maneira, se a praxe do PT era de que cada dirigente fazia o
que lhe dava na telha sem dar satisfação a ninguém, não haveria motivo interno
algum para Genoíno deixar a Presidência.
Mas, apesar de dizer que de nada sabia, Genoíno não se furtou de dizer que
nunca ouviu dizer de mensalão, e que, "portanto", mensalão não existiu. Portanto
como, cara-pálida? Se não sabia, não sabia, e a única resposta possível seria
"não sei".
Perguntado sobre dinheiro no exterior, outra vez entrou em choque com a
alegação de que nada sabia. Disse que "o PT não tem nem nunca teve dinheiro
no exterior". Só pode afirmar isso quem sabia sobre a gestão financeira, nunca
quem afirma que não tinha conhecimento de nada.
O responsável por este blogue estará hoje a partir das 22h30 na TV Cultura de
São Paulo, na TVE do Rio e em outras emissoras educativas regionais no programa
"Observatório na TV", comandado por Alberto Dines. Também estarão o jornalista
Fernando Rodrigues, da Folha, e a cientista política Lúcia Hippolito,
comentarista da CBN e do UOL. O assunto, naturalmente, é a crise, como a
imprensa está cobrindo e por aí vai.
De Maria Goretti dal Bosco: Será que é politicamente correto usar "a
coisa aqui tá preta"? Por que o preto pode ser sinônimo de mau, ruim, corrupto,
sujo, caos, etc.? Pra discussão.
1. Acredito que seja uma praga pautar o que se diz pelo que é
considerado "politicamente correto". Além de constranger e agredir o idioma, a
prática meramente revela a disposição de quem a adota de ficar de bem com todo
mundo. A possibilidade de que elocuções venham a ofender alguém está na
razão direta da disponibildade de essas pessoas se sentirem ofendidas
gratuitamente. A frase "A coisa aqui tá preta" é tradicional na língua
portuguesa (vide a canção de Chico Buarque). O motivo pelo qual a empreguei para
dar título a este blogue foi tê-la usado no título de artigo que publiquei
recentemente no Correio Braziliense (ler aqui).
2. Exemplos de ridicularias "politicamente corretas":
Essa história de se referir a "cidadãos e cidadãs", "senadores e senadoras",
"deputados e deputadas", "engenheiros e engenheiras" e assim vai. (Com certeza
alguém já reclamou de o masculino usualmente vir antes do feminino -- ou será
que deveria ser "da feminina"? -- nessas elocuções.) A língua portuguesa sempre
usou o masculino como designador genérico. Essa mania apareceu com as feministas
norte-americanas, criando problemas gravíssimos para o magnífico idioma do
Bardo.
Outro dia, com estes ouvidos que a terra há de comer, ouvi uma deputada
federal fazer menção da tribuna ao fato de a polícia só prender os três PPP --
pobre, prostituta e "afro-descendente".
"Recursos humanos" por "mão-de-obra".
"Toda opinião é válida". Não, não é. Muitíssimas vezes opiniões expressas
são completamente imbecis, não baseadas em conhecimento mínimo do assunto
tratado, reveladoras de carências culturais e intelectuais insanáveis e, assim,
perfeitamente descartáveis.
No sistema de som do supermercado: "Colaborador Fulano, por favor
apresentar-se ao frente de caixa". Como assim, "colaborador"? O sujeito é
empregado, funcionário, não "colaborador".
No telemarketing: "Sua ligação é muito importante para nós". Ora, a ligação
é importante pra mim, que estou ligando, e não para a droga do banco, ou do
provedor de Internet, ou de quem quer que seja que eu esteja contactando.
Em 1991, o governo do estado do Rio de Janeiro, à testa então Leonel Brizola, obteve empréstimos internacionais somando quase US$ 1 bilhão para um programa de despoluição da baía da Guanabara. De lá para cá, gastaram-se nas obras cerca de R$ 800 milhões -- mas apenas 25% do esgoto lançado na baía são tratados. Ao longo do tempo, os contratos para a realização dos serviços foram seguidamente aditados. Coisa como R$ 300 milhões podem ter saído pelo ralo, ou mais apropriadamente pela privada. Uma CPI instalada na Assembléia Legislativa do estado investigou o caso (ver). A Câmara Municipal do Rio reabriu a questão em março deste ano.